segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Metalinguagem

Começou. As pupilas caminhavam de uma extremidade à outra, como se ele lesse, no momento em que se deu por acordado. Envolto em três cobertores, e mesmo assim ainda com os pés para fora, ele sentia frio. Estava frio, chovia lá fora. Logo no dia em que Rorrim havia programado dar uma volta pela manhã e aproveitar o sol matinal. Ao abrir os olhos naquele instante, ele percebeu, pela luminosidade cinzenta que o seu quarto-sala vestira, que ele deveria mudar de planos.
Pôs-se de pé. Lavou o rosto na água gelada da torneira gelada. Vestiu o roupão de linho. Passou o café, encheu uma xícara grade. De certa forma ele achava que esses três elementos combinavam: o frio, o roupão de linho e o café. Se postos todos os três em uma única caixa iluminada cinzentamente, claro.
Por mais que apreciasse esse modo de vida preguiçoso, ele estava cansado. Queria sair um pouco de casa, sentia que não agüentaria nem mais um dia com a caneta na mão escrevendo corridamente durante horas. Rorrim estava escrevendo um conto interminável. Interminável não em extensão, mas em prazo de escrita e consumo de seu tempo, e também em outros elementos. Escrevia muito, e apagava e rabiscava mais ainda o que havia escrito. Aquela tarefa se tornara fadigosa. E agora, justamente no dia em que ele resolvera reservar para tomar um pouco de sol, a situação conspirara contra ele, forçando-o a debruçar-se mais uma vez nos escritos amontoados pelo chão de mogno da sala. Não havia saída. É claro que ele poderia fazer outra coisa ao invés de voltar a escrever naquele dia, mas, justamente no momento em que ele procurou algo que pudesse substituir tal atividade, sentiu um enorme remorso em abandonar os papéis e decidiu dedicar-se, por mais exausto que estivesse, a eles.
Deitou-se no chão, que também estava gelado, e apanhou as folhas: era assim que ele gostava de escrever. Decidiu não reler tudo o que havia escrito até então, ao todo três paginas. Recapitulou apenas as últimas linhas e pôs-se a escrever.
Não conseguiu escrever nada. Olhava para o teto, para as fendas no mogno do assoalho, para a xícara de café, agora já vazia, para o ar invisível, mas não conseguia extrair de nada faísca que pudesse impulsioná-lo a retomar o conto. Sentiu-se sem energia alguma e totalmente indisposto a escrever naquele momento e decidiu recorrer a uma antiga técnica de relaxamento que não praticava há tempos: visitar o porão.
Levantou-se, definitivamente, e foi ao porão. Desceu as escadas de madeira semi-podre, devido à umidade do local, e olhou a sua volta. Adorava porões. Dirigiu-se a um amontoado de caixas de papelão, as quais nunca havia reparado naquele recinto. “Devem ser do antigo dono da casa.” Abriu-as. Em seu interior, havia muitos livros, o que o deixou contente. Um deles era um que ele havia lido há muito, sobre uma personagem chamada Dorian. “Idiota, ele... Como nunca percebeu que aquele quadro de quadro não tinha nada, era simplesmente um espelho! Muito idiota...”, comentou.
Contudo, o que mais lhe chamou a atenção foi um ramalhete de papéis. Parecia ser um conto. Ao ler o título, encabulou-se: “Metalinguagem”, o mesmo do conto que estava escrevendo. Estranhou. Correu de volta a sala, jogou-se no chão, colocando ambos contos lado a lado.
Iniciou a leitura do conto (que apenas se diferenciavam pelas cores das páginas, mais amarelas e, as do outro, mais alvas). A história narrava os fatos de um escritor que, ao cansar-se de escrever um conto, dirige-se ao porão e encontra, acidentalmente, um conto com o mesmo título – Metalinguagem – do que escrevia. Estranho. O enredo parecia referir-se ao próprio conto. Ora, esse era o tema da história! Havia mais: o conto ainda relatava a comparação e o estranhamento do autor ao comparar as histórias, que faziam referências a si mesmas. Estranho!
Agora não sabia mais diferenciar os contos: não sabia mais qual era o seu, qual era o achado no porão. Eram idênticos. Na verdade, possuíam uma diferença básica: a cor. Não julgue Rorrim por daltônico e muito menos idiota por não saber diferenciá-los com base nesse critério. O fato é que ele simplesmente não sabia qual dos dois era o seu justamente, pois, em ambas as narrativas havia um trecho que dizia exatamente assim: “[...] que apenas se diferenciavam pelas cores das páginas, mais amarelas e, as do outro, mais alvas.”, o que impedia com que ele soubesse se o de paginas brancas ou amarelas era o seu por falta de um especificador de referencial!
Rorrim se sentia perdido e com mil flechas apontando em direção a ele. Os arcos eram brandidos por ele mesmo, como se estivesse em frente a um espelho, olhando para si mesmo, em um labirinto labiríntico que dava voltas e terminava no mesmo lugar. E ele leu esse trecho na versão de páginas amarelas e achou interessante a construção “labirinto labiríntico”, um jogo de vocábulos que contribui para a construção de uma figura linguagem criativa, já que a própria idéia de labirinto é evocada na expressão formada. E, essa idéia é ainda mais valorizada se trabalhada em um conto cujo intuito principal é fazer com que o leitor se sinta em um labirinto. Opa, essas últimas assertivas são problemáticas: elas rompem com gênero desse texto, ele deixa de ser um conto passa a ser uma análise. É melhor apagá-las. Ou não? Deixá-las-ei aí, não as apagarei...
“Deixá-las-ei aí”, disse Rorrim, ao ler a versão branca do conto.
“Deixá-las-ei aí”, disse Rorrim, ao se ler na versão amarela do conto.
(Preocupação com a colocação pronominal é algo tão erudito!) Riu ao ler esse trecho em alguma das duas versões, não sabia qual.
Seus joelhos doíam por estarem a muito tempo sendo pressionados contra o chão duro de mogno. Hoje ele sabia que havia sido um erro não haver colocado carpetes macios por todo o chão da sala, se houvesse feito isso, seus joelhos não estariam doendo naquele momento. “Ao ler essa passagem de uma das duas versões, ele reparou que a palavra ‘erro’ havia sido escrita com a grafia errada e resolveu corrigir. Fez isso em ambas as versões. Odiava erros ortográficos”.
Rorrim decidiu fazer algo que não estivesse na narrativa. Queria dar uma de espertinho, de romper com a metalinguagem. Mas o que poderia fazer para conseguir isso? “pensou.” Já sei: vou tentar romper com a metalinguagem! Duvido que isso esteja narrado aí! “... Será?”, levou o dedinho à boca.
Seu próprio ato já fornecia respostas para sua dúvida. Às vezes, escrever é vigiar.
E, lembrando-se da definição tosca do gênero literário “Conto” que uma professorinha de primário ensinou-lhe (uma narrativa curta e blá, blá...), pegou a versão amarela e leu o seguinte trecho: “E, lembrando-se da definição tosca do gênero literário “Conto” que uma professorinha de primário ensinou-lhe (uma narrativa curta e blá, blá...), pegou a versão amarela e leu o seguinte trecho...”
De olhos arregalados, ele atirou o conto amarelo ao chão, assustado.
“Rorrim percebeu, ao ler esse exato trecho nessa versão branca do conto, que todos os fatos narrados aqui refletiam simplesmente os fatos que estavam se passando em seu dia! Desde o momento em que acordara! Ele era o personagem daqueles enredos que lia e que escrevia.”
Enraivou-se e rasgou todas as folhas que estavam a sua frente. Não havia mais contos agora. No entanto, por que essa metalinguagem alucinante continuava e continuou?
Na verdade, ainda existia uma versão do conto recontando a um leitor escritor, ou a um escritor leitor, os fatos renarrados da narrativa. Não é? É. E é por isso que o conto que Rorrim escreve é interminável.

sábado, 29 de dezembro de 2007

Mergulhando

-Nossa, mas você vai comprar um peixinho de estimação? Mas eles morrem tão facilmente!
-Eu também.
Silêncio gelado. Grilos ao fundo, olhos ao chão.

Calvinando

"Começou a fazer um diário: fotográfico, claro. Com a máquina pendurada no pescoço, afundado numa poltona, disparava conpulsivamente com o olhar no vazio. Fotografava a ausência de Bice."
Gli Amori Dificili, Italo Calvino, pag.62.
Italo Calvino me deixou com uma incrível vontade de tentar dormir em um compartimento de vagão de trem durante uma viagem que dure uma noite. Ai, como ele é foda.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Saraivando

Querido dsiário, [adoro curtir com gêneros literários! haha!]

Comprei dois livros importantes hoje, por puro impulso. Um deles eu já estava namorando a muito tempo, o outro, foi paixão a primeira vista ao vê-lo naquela prateleira de madeira, quietinho, sorrindo para mim, em meio a todo aquele clima de ar-condicionado da livraria.
O primeiro, um curso de Italiano, passo a passo. Interessante, decidi hoje que vou ser autodidata para algumas coisas. No caso de aprender Italiano, decorre da conclusão de que eu não vou perder meu tempo frequêntando aulas de uma língua que não é essencial e muito menos tão importante quanto outras na minha vida. É puro hobby, e uma paixão que vem desde Cabíria e seu "Io no voglio vivere più!".
O outro é o tipo de livro que se compra por ostentação, para se ter na sua biblioteca particular: um volume único com as obras completas dos Irmãos Grimm, traduzido para o Inglês numa versão de 1869 (uma tradução anônima, o que é ainda mais emocionante, hihi!). Ah!, o melhor: por apenas 14 reais.
Eu cometi a piada de pedir para embrulhar para prensente, como se as atendentes estivessem bem desocupadas e disponibilíssimas para realizar tais caprichos de uma pessoa em um momento tosco. Mas eu quis para presente! Quis me dar os livros. Pronto.
- Aqui está, Felipinho, uma lembrancinha, meu querido!
-Oh! - cara de espanto -, mas que honra!

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Aviso

"Gentse, como assim vocês ainda não perceberam que a nova música da Britney, Gimme More, é sobre drogas???"

Ruta no Ra


Almoçar no RU às vezes tem enormes vantagens, mesmo quando o cardápio não é estrogonofe de soja ou hamburger de frango. Dessa vez eu comi sozinho. Solito, como diria minha mãe. Do meu se sentaram dois sujeitos daqueles que você não consegue supor, por mais conectado que você seja aos esteriótipos universitários, qual curso faziam. Um deles tinha um semblante lento, o outro, rápido por demais.


-Pois é cara, é muito interessante esse lance de origem das palavras né? De línguas e tal... - esse é o lento.

-Nossa, muito mesmo. - o rápido.

-Eu tenho um amigo meu que é croata, imagina só a língua dele!

-Nossa... Você sabe, né? Tipo, a origem dos nomes desses países da lá, né? Tipo, vem de slave, que significa escravo em inglês.

-É mesmo?

-É. Slave significa escravo, e foi por isso que os países de lá mudaram de nome. Tipo, Eslovenia, Eslováquia, todos daquela região lá - aí ele começou e não parou mais - pois é, e tipo, é muito interessante essa questão por que você pode perceber a história desses processos. Era uma vergonha pra esses países terem um nome que derivasse de uma palavra que significa escravo em outra língua. Por isso eles mudaram. Mas tudo isso ocorreu porque os europeus eram tão preconceituosos que nem negros eles escrevisavam naquela época, então eles escravizaram esses povos do centro da europa, a Croácia, Elovênia, Eslováquia e tal...


Juro que é tudo veradade! Quase não consegui degustar meu incrível pedaço de alcatra asada por causa dessa incrível análise! Que medo! Já sei de onde vou retirar o tema para o meu Projeto de Iniciação Científica: "Uma Análise Linguístico-Causal para uma nova historiografia das Relações Internacionais", ou então, "As Línguas Anglo-saxãs como a base para todo o constrangimento Internacional". Incrível, o cara era um gênio!


Esse epsódio me fez lembrar o quanto eu odeio pessoas que presumem um conhecimento de mundo incrivelmente maior do que possuem. Que arrogância. E ignorância, por que julgam que o interlocutor var acreditar em tudo o que ele despeja língua à fora. Acho triste. Acho divertidíssimo.


[Gente, que horror. Ao terminar esse post, fui pesquisar um pouco sobre a Croácia e descobri que ela não tem um Lema! Tá na wikipédia! Credo, como deve ser triste para eles! Não ter um lema...]

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Pânico na Sala de Aula


Vida de professor não é fácil.

Eu tenho um aluno meio estranho. Ele tem uma pronuncia perfeita, mas é muito estranho, sabe daquele tipo que se senta em uma cadeira e fica curvado, como se escondesse algo, ou como se não quissesse olhar para ninguém. Pois é, ele sempre vem de bicicleta pra aula e sempre chega exatos quinze minutos atrasado.

O fato é que hoje ele veio sem bicicleta. Não, o problema que me assustou não foi esse, foi outro. No decorrer da aula, que era basicamente de conversação, uma pergunta foi proposta pelo livro:

-Do your friends often laugh at you?

E eu dirigi essa pergunta à ele:

-Yes, they do always.

-Yes, really? But, why?

-They call me "cabeça de panetone"...

-Really?

-Yes... - olhou para um ponto perdido no chão da sala, com um semblante por demais sério - mas tudo isso vai mudar, tudo isso vai mudar, hoje isso tudo vai ser diferente...

Aí sim eu fiquei com medo. Já tava vendo o menino matando os amigos em uma fúria vingativa! Sempre a mesma coisa, as vitmas de bully se rebelando e esfaqueando os agressores! Que horror! Aposto que ele ja havia até comprado a AR-15 pra metralhar todos eles! Ah! Agora tudo se encaixa! Era por isso que ele havia vindo à pé pra aula hoje! Ele vendera sua bicicleta pra comprar a AR-15!!! Tudo se encaixa!

Minha ilusão derreteu quando ele retomou a palavra e disse:

-Porque hoje eu vou cortar o cabelo.


quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Melodias de Vida


O grande tema da minha vida, assim como constataria Kundera, eu descobri há alguns dias, apesar de toda a presunção. A minha grande problemática é a minha constante vontade de ter poder sobre tudo. A minha percepção de que o poder está em tudo é muito parte de como eu funciono. Não é simplesmente um autoritarismo extremado, mas sim uma vontade de obter controle, pelos mais diversos motivos. É foda. Eu me articulo de todas as formas, não sei se para controlar situações ou se para me dar a ilusão de que controlo alguma coisa. O poder me explica muito bem. Depois, mais foda ainda é quando eu descubro que eu não tenho todo esse controle, que nem controle sobre nada eu tenho. É foda, e daí, como não poderia ser diferente, eu sofro.

Odeio posts muito pessoais, odeio. Não sei lidar com a preponderância arrogante de ficar digitando palavras contaminadas de muitos eus e meus, que chatice. Meu ego-problemático-suicida não dá conta de aceitá-los. Desculpem-me, não dei conta de evitar esse.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Discussão acerca da existência de uma natureza humana e a importância da deliberação frente às suas problemáticas


A discussão acerca da existência de uma natureza humana, que proporcionaria ao homem direitos inalienáveis, é inútil. No entanto, visto que existe uma percepção intra-social realizada pelos indivíduos acerca de direitos inalienáveis, feita através do contato destes com sua cultura e com suas ideologias, sejam eles válidos ou não, deve-se considerar tanto a sua função na sociedade quanto a possibilidade de formulação desses direitos inerentes à uma suposta "natureza humana" que forçariam ações individuais e sociais. A problemática inserida nisso é não só o reconhecimento e legitimação desses diretos, mas também de avaliação dos mesmos. Por isso, em termos normativos, deve-se investir em políticas de deliberação com o fim de propiciar discussões que visem alcançar e definir consensualmente, sendo isso possível ou não, quais são esses direitos que os membros da sociedade enxergam através da sua lente cultural-ideológica.


A Monografia


16h50, minha casa:

lyanna (clack!) - www.waltzforanight.blogspot.com diz:que isso?a modernidade, que me fez o favor de acabar com os heterosvai ser minha monografia."A modernidade e a morte do cromossomo y"

pi diz:kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk mas tem que ser na area de letras, entao o tema tem que ser esse: "A relação entre a linguistica aplicada da modernidade e o cromossomo y"

lyanna (clack!) - www.waltzforanight.blogspot.com diz:"e a morte do cromossomo". tenho que falar que ele morreusenão vão achar que escrevi sobre ele. daí fica sem créditos. ah não

pi diz:nao, lý. é pq vai ser uma dissertação literária, vc só vai contar que o cromossomo y morreu no final, NO CLIMAX!!! ai as leitoras choram. senao forem feministas, claro.

lyanna (clack!) - www.waltzforanight.blogspot.com diz:HSAUihsaiushaiusaHiUAShsaUIhSAeu vou chorar escrevendoah não, gente. ah não, pi!

Aquela que devia ter comido o próprio cérebro



O de sempre: adoro programas vespertinos. O de hoje apresnetava uma matéria sobre comidas exóticas. O repórter perguntou a uma mulher que acabara de experimentar cérebro de boi:
-E aí, o que você achou?

-Olha, até que o gosto não é ruim não. Posso dizer que não me traumatizou não. Mas sei que nunca vou esquecer disso.

Incoerência é foda: Freud chuta mais uma vez a tampa do caixão.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

A Mostarda


E como fica a questão do artista que produz uma obra que, quando é apreciada pelo público, esse descobre nela alguma outra coisa que o próprio artista não havia pensado, que não havia sido conceituado? Como fica? Como fica a obra, enriquecida-além ou deve-se desconsiderar o detalhe-além-dos-olhos-do-próprio-criador por aquele não ter sido envolvido na conceituação artística?

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

A Pia

Já fazia um mês que aquela pia estava daquele jeito, nojenta! E a moça das pernas depiladas refletia sobre aquele fato – sempre com o queixo caído, estática, com os olhos fixos num ponto no canto do teto. Como podia deixar a situação chagar àquele ponto? Não havia limites, não havia tolerância que superasse aquela aberração. Um horror. Aquela pia estava um horror. E ela continuava pensando, com preguiça, que a culpa daquilo tudo era da própria preguiça. Da preguiça e da incapacidade que ela tinha de terminar as coisas, de resolvê-las e atirá-las em direção a um limbo para onde vão as coisas-resolvidas-e-que-não-mais-incomodam-os-homens. O motivo não seria necessariamente o fato de ela morar só, motivo o qual a daria a liberdade de resolver os próprios problemetes cotidianos quando quisesse, ou quando não agüentasse mais, como sempre ocorria. Havia cabelo na louça branca da pia, que deixou de ser branca devido ao sucessivo acúmulo de baba, xampu, pasta dental, loção para barbear, excrementos, restos de vômito, leite azedo (pois ela achava um crime jogá-lo no lixo e fazer os lixeiros, pobres servidores da podridão humana, carregarem em seus intermináveis sacos pretos que vazariam, vazariam, vazariam e gotejariam cansativamente), catarro, sangue menstrual e nasal (“Senhores passageiros, desculpem-nos pela umidade baixa”), gelatina de uva, leite condensado e coca-cola light (por que ela era interminavelmente gorda). Mas ocorre que, entre lençóis quentes e uma noite abafada, ela acorda. Levanta-se da cama com um salto violento e corre ao banheiro. Para. Abaixa a cabeça 27° e observa a Pia Negra. Cerra o olho esquerdo alguns milímetros e forma uma feição desafiante. O ápice havia chegado e ela não sabia de onde ele vinha. Teria entrado pela porta sem que ela percebesse? Não, a campainha teria tocado. Os ápices tocam campainha? Ela não sabia. Teria entrado pela janela? Não sabia e aquilo não interessava mais. No escuro do banheiro grande de sua casa, ela arregaçou as mangas e dirigiu-se ao monumento à sua frente, apoiou o braço direito na borda, violenta mais cuidadosamente para evitar um deslizamento devido à viscosidade que a louça adquirira, e mergulhou profundamente a mão na poça de água (substantivo que há muito deixara de querer nomear aquele líquido acumulado naquele local). Ela sabia que estava entupido. Ah, ela sabia, e ela temia isso. Mas agora era pra valer. Aproveitando as dobras de gordura que ela decidira ter na palma da mão, ela começou a pressionar o ralo, fazendo uma força que resultasse em uma pressão que possivelmente resolveria o problema do entupimento desagradável. Palma da mão e ralo de metal. Um vai-e-vem interessante. E ela começou com o movimento de pressão energicamente, batidamente. Excitante. Que loucura, que coisa maravilhosa, que ritmo impressionante, que delícia! Ela descobrira a oitava maravilha do mundo (ou da sua própria casa). Como poderia ela nunca ter se dado conta de que tinha, logo ali no banheiro, uma amiga que estava sempre esperando por ela, um consolo, um prazer-pronto-e-prático: sua piazinha linda! O braço já apresentava fadiga quando ela decidiu acelerar o ritmo, agora ela já urrava, se debatia (sem tirar a mão do ralo), jogava a cabeça pro lado, esquematizava expressões felinas. E tudo parou em um jato. De repente. O ralo explodira a pia quebrara. A moça caíra espatifada no chão e a pia de bunda caíra no tapete. Ela, suando, olhou para o teto mais uma vez e disse, chega, vou deixar para separar os parágrafos depois... depois, depois, não preciso fazer isso agora, estou com preguiça. Reticências.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Dalí


Surreal.

Mais surreal que o próprio surreal é o próprio Dalí em uma programa de perguntas e respostas onde pessoas tentam descobrir quem é a celebridade que responde a perguntas com o mínimo de coerência possível.
(um beijo para um pedacinho de flor)



segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Andança


Percebi hoje que faz uma semana que a palavra "nada" tem me rejeitado. É simples, ocorre que sempre que eu vou escrever “nada” rapidamente, o que sai na tela é ‘”anda”. Curioso.
Talvez seja tempo de andar e da não fazer o nada.

domingo, 26 de agosto de 2007

Se minha cabeça doer

É curioso. Momentos trelosos.
Um. Uma sala da faculdade, um aviso atrás da porta de entrada gritava em letras vermelhas escorridíssimas: “Não retirar as cadeiras desta sala!”. E, logo a baixo, uma inscrição à caneta, letra cursiva e muito pessoal, retrucava: “E o direito de ir e vir das cadeiras?!”. Isso definitivamente me fez pensar em como o ser humano é um ser maligno, que faz uso de tudo ao seu redor em beneficio próprio, que oprime, castra, mutila e ursupa direitos! Que mundo triste! Como ficarão as pobres cadeiras em meio a tanto abuso? Que difícil deve ser para elas.
Dois. Eu andando nas entrequadras. Fim de tarde, passa do meu lado uma moça com um cachorro, cuja raça desconheço. O animalzinho segurava com a boca um gravetinho, daqueles que a gente vê em desenho animado mesmo, um gravetinho perfeito, brinquedinho preferido dos cães. Pois é, então, após observar que a dona estava de cara feia e nem olhava para animal, eu pensei que o cão poderia muito bem estar brincando sozinho, fazendo tanto o papel da dona, ao atirar o graveto para longe, quanto o seu próprio papel, o sair correndo (com a língua de fora) para apanhar a madeirinha. Uma revelação: dessa forma, pensei, o cachorro poderia ir aonde quisesse, ir à China, andar sem se cansar, pois estaria brincando e nem veria o tempo passar, bastava apenas ele ir atirando o gravetinho cada vez mais longe e mais longe e mais longe e mais longe e mais longe e mais longe e mais longe e mais longe e mais longe China.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Vento e Vidro


Ás vezes eu tenho medo de pronunciar minhas expctativas, como se elas fossem bolas de cristal prestes a se despedaçarem no chão. Secas, quebradas, perdidas.

É como se minhas impressões saissem de mim e se mostrassem em uma tela branca em frente, acenando, gritanto que todas estavam erradas. E nunca mais voltassem.

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Análise - 8 Femmes

Assim que terminei de assistir esse filme de François Ozon, a primeira coisa que me veio à mente, ao pensar em escrever uma análise, foi que eu encontrei muitas idéias interessantes esparramadas pela trama. E que trama, para começar dizendo! Com trejeitos marcantes de Agatha Christie, a rainha do noir - por mais que 8 Femmes não compreenda totalmente a estética noir, todo o clima misterioso e duvidoso do enredo nos coloca em meio a um quebra-cabeça de segredos que devem ser revelados com o decorrer da história.
Acima de tudo, 8 Femmes é um filme francês. Tanto pelo cuidado com a cenografia e com o figurino – lindos e coloridíssimos – quanto pelos temas peculiares e pouco comuns que a história aborda, como é o caso do relacionamento de Marcel com as filhas. Também devemos nos lembrar das músicas típicas francesas que dão ritmo à película, por mais que elas nem sempre estejam de acordo com o enredo ou com a situação que se desenvolve na história. Aliás, uma análise que não esteja tão preocupada com a verossimilhança do filme, poderia mencionar que as partes musicais servem simplesmente para chamar a atenção do publico para longe do quarto onde o morto, que não está morto, se encontra; distraindo o espectador e escondendo a verdade, como se todas elas soubessem que Marcel ainda estava vivo. Boa interpretação, mas peca pela falta de verossimilhança.
O que mais me encanta no filme é a visível estática teatral que o permeia do começo ao fim e que se mistura com o melhor glam francês, visível em Pierrette e em Augustine após a transformação. Observamos que a maior parte da história transcorre em uma sala de estar, com seus vários ambientes que dão espaço ao entra e sai das atrizes. Fantástica o último take da exibição que mostra as oito de mãos dadas de frente para a câmera, como que para fazer reverência e agradecer pela presença da platéia.
Vale muito à pena comentar alguns elementos componentes do enredo. O primeiro deles é a reação que as personagens têm ao saberem da morte do Patriarca Marcel, visto que, à exceção da caçula nos primeiros momentos depois da descoberta do assassinato, nenhuma outra personagem se mostra chocada ou aterrorizada com o ocorrido.
Em segundo plano, porém com uma importância catastrófica no filme, temos algo que pra mim é o que há de mais rico em toda a história: o fato de todos aqueles conflitos, problemas, discussões, casos e intrigas, aparecerem exatamente na situação da morte de Marcel, e justamente em função desta. É como uma bomba que cai em uma cidade e causa seus efeitos. Esse detalhe se faz muito importante para a compreensão da história, pois era exatamente isso o que a caçula queria trazer à tona, mostrar que nenhuma daquelas oito mulheres amava Marcel.
O desfecho é algo impressionante. Após a descoberta de que o pai não está morto (um anticlímax muito bom), mas apenas trancado no quarto onde o suposto assassinato ocorrera, o suicídio do mesmo ocorre com o intuito de por um ponto final em tudo aquilo que se desenvolveu durante todo o filme, como um último suspiro, querendo abandonar todos aqueles problemas que habitam aquele ambiente de família.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

La TV de June



Não vou discutir se TV presta ou não, isso é clichê de mais. O fato é que, eu em meu dia do ócio chato, mais uma vez, vou pra sala e ligo a tv. Aí vejo lá uma apresentadora apresentando umas dez pessoas com seus animais de estimação mágicos. Todos esquisitos.
Pois é, estava ela lá com uma cobra amarela, a tal da piton (que todo mundo já cansou de ver mas que ninguém se cansou de perguntar se ela pica) amarrada ao pescoço e conversando com a dona, uma mulher qualquer.
Eis que a pergunta é feita:
-E então, Gisela, quando foi que você decidiu ter uma cobra de estimação?
-Uai, tudo começou com um sonho... Eu passei a sonhar constantemente que eu tinha uma cobra de estimação e que a minha vida era muito mais feliz. Rsrs...
Pausa pro comentário. Pense em Freud ouvindo sobre o sonho dessa sujeita. Pense nele tremendo na cova.
Agora pense na cara de Freud quando ficasse sabendo que a louca sonhadora comprou uma cobra por causa do sonho! Pense! Desapontamento total! Aff total!
Caí da cadeira...
E pra complementar, a proprietária do bicho diz:
-Nossa, e a cobra abre portas...
-Como assim? – pergunta a apresentadora tentando se desvencilhar dos inúmeros tentáculos do animal por todo o seu corpo.
-É... ela aprendeu que se ela enrolar o rabinho envolta da maçaneta...
Reticências.

terça-feira, 31 de julho de 2007

Não Jogaremos mais Xadrez com a Morte

Eu me lembro da primeira vez em que assisti a um filme do Bergman e do primeiro comentário que fiz, antes do seu fim. Disse “Que filme denso!”, e era mesmo. Morangos Silvestres. Hoje eu não recomendaria esse como o primeiro do diretor para alguém assistir, de forma alguma. Mas me lembro que gostei muito.
Já escrevi muito sobre Ingmar Bergman. Não vi todos os filmes, mas uns sete eu garanto. Quando alguém me pergunta “qual seu diretor favorito?”, a primeira coisa que eu respondo é “pode fazer uma pergunta mais fácil?”, mas o que está lá no fundo da minha tela mental, acenando luminosamente, é o tabuleiro de xadrez na praia de O Sétimo Selo, a cenografia toda em vermelho de Gritos e Sussurros, a toda a pele e a máscara de Persona...
É difícil tirar ele da cabeça, é difícil colocar ele na cabeça. Por mais que o reducionismo que alguns jornais tem feito com ele, limitando-o à angustia e ao silêncio, me deixe puto, eu concordo com isso. Mas falta, Bergman é corrosivo por demais, denso por demais, literário por demais, interior por demais.
É fato que até hoje eu não assisti filme mais rico do que Persona. Rico e belo. É o que tem a melhor cinematografia, na minha opinião. Dá inveja às vezes, a habilidade dele em lidar com idéias tão íntimas. Dá inveja como ele consegue trabalhar tão bem todo o conteúdo que joga esparramadamente na tela branca em branco-e-preto.
Sabe, é muito difícil eu chegar a dizer isso, mas se eu fosse um cineasta e tivesse na bagagem toda uma cinematografia do nível da que Bergman construiu, eu estaria muito próximo (porque realmente estar lá é algo impensável para mim, nesse sentido) da satisfação.
Em comum com ele, eu tenho o medo de envelhecer, presente em Morangos Silvestres, e o incondicional apego à juventude. E agora lá está ele, jogando xadrez com a morte. Que puta idéia, deus!

domingo, 24 de junho de 2007

Críticas


Não, essa idéia não é originalmente minha. Vem de outro lugar que eu não sei qual. Mas achei interessante, dei uma reajustada aos meus parâmetros e deu nisso aí. (Sim, esse post também se inclui na série “eu não acho isso uma grande sacada, mas como há quem ache, eu posto”.
Crítica formal é aquela que se refere à estrutura do argumento, a ordenação e colocação dos argumentos em uma linha de argumentação. Tem, por natureza, dessa forma, um caráter analítico-estrutural, e por isso é muitas vezes embasada na própria Análise do Discurso.
Crítica Substancial não se refere ao argumento, mas sim aos seus fundamentos, levando em conta seu contexto de desenvolvimento, suas raízes, validade, conseqüências, assim como todos os fatores que o compõe. Quando nós criticamos a política corrupta de algum político, essa é uma crítica substancial, não importa a forma como criticamos, nem os argumentos que utilizamos.
Agora, dando uma de professora primária: é importante que se perceba que ambas as críticas são extremamente válidas, sendo que sua força depende apenas do grau de sua análise e densidade de sua estrutura. A substancial não é necessariamente mais atacante do que a formal, e essa pode muito bem derrubar uma forte linha de raciocínio com apenas uma simples análise de sua estrutura.
Mais uma vez como a professora primária: uma boa análise centra-se na utilização desses dois tipos de crítica, pois dessa forma consegue-se abarcar todos os aspectos de uma argumentação. (Meu deus, mais professora impossível! Primária total!)
(Quando eu me refiro às professoras primárias, tenho em mente todo aquele estereótipo de uma mulher-jovem sorridente, paciente, que adora Cecília e Vinícius, formada em pedagogia e escuta Elis, se veste com o equilíbrio de suas opiniões [geralmente de “boa índole”. Defina boa índole!], ama a todos, gosta de animais, e tem como filme preferido [essencial numa psicografia!] Matilda).

Termos de Serviço


O momento mais tenso da minha vida foi quando alguém me disse que nos Termos de Serviço do Blogspot havia uma cláusula que afirmava que o Google (mágico) resguardava para si os direitos autorais de todo o conteúdo publicado no Blogspot. Entrei em pânico (filho). A minha relação com autoria e criação é extremamente obsessiva. Meuás amigos sabem, quando estamos juntos e eu conto alguma tirada engraçada, por exemplo, para um deles (primeiro), e esse vai contar ao outro (segundo) que não havia ouvido, eu EXIJO (autoritariamente) que ele diga ao outro que fui em quem criou aquilo. Oras, onde já se viu?, a outra pessoa adorar o que eu disse sem saber que fui quem disse?! E o pior, a primeira pessoa levar crédito por algo meu!
É obvio que isso tem a ver com minha necessidade de reconhecimento e individualidade.
Pense só, o Google, com os braços cruzados e uma enorme cara de grandioso me possuindo? Possuindo o que eu fiz?
Enfim, me coloquei a pesquisar sobre o assunto, pois ter fé em rumores nunca levou ninguém a lugar algum (disse isso sem pensar, aposto que já levou, aposto!). Eis que encontro:
“Seus direitos de propriedade intelectual. O Google não reivindica nenhum direito de propriedade ou controle sobre qualquer Conteúdo enviado, postado ou exibido por você no Serviço ou por meio dele. Você ou seu licenciador de direitos detém todas as patentes, marcas comerciais e direitos autorais de todo Conteúdo enviado, publicado ou exibido nos serviços do Google ou por meio deles, e é responsável pela devida proteção desses direitos. Ao enviar, publicar ou exibir Conteúdo nos serviços do Google que são disponibilizados para o público você concede ao Google uma licença mundial, isenta de royalties e não exclusiva de reproduzir, publicar e distribuir tal Conteúdo nos serviços do Google com o propósito de exibir e distribuir os serviços do Google. Além disso, o Google reserva o direito de não aceitar, publicar, exibir ou transmitir qualquer Conteúdo de acordo com seus próprios critérios.”


Pronto. Agora encontra-se justificado o fato de eu não postar a semanas.

domingo, 10 de junho de 2007

A Testa Estragada


Fazia seculos que eu não ia á casa da minha avó. Hoje fui.

O melhor é que ela tem um lustre de vidro que fica suspenso no teto, praticamente apenas uns 1,60 m do chão! No meio da sala! Tipo, coisa louca! Logo fui me erguer do sofá para atravessar a sala e meti a cabeça na porra da quina da merda do idiota do lustre!

Minha mãe correu, pegou gelo. Coloquei gelo. Começou a sangrar absurdamente, a escorrer e pingar e me manchar. Dói muito.

Por pouco não precisei de dar pontos... Imagina, eu com uma cicatriz esp na testa? Nem pense.

Por fim, agora minha testa encontra-se com um curativo. E o melhor: eu não posso fazer nenhum movimento com nenhum músculo da testa, ou seja, estou sem expressão. Até o Neco - é o nome do machucado - cicatrizar eu não tenho expressão, logo não tenho sentimentos. Serei frígido, seco e pálido. Minha testa encontra-se estragada.

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Os Velhos


(Todas as afirmações que eu faço aqui tomam como parâmetro de análise a sociedade na qual eu vivo. Encare esse “eu” da maneira que preferir. Não estou levando em consideração o panorama social do leste europeu e muito menos o da China setentrional, se te interessa saber)


Quando cheguei em casa na noite de hoje, a vizinha do apartamento da frente estava na minha casa, minha irmã a havia recebido. A velha me contou que a chave da sua casa havia ficado com a filha, que acabara de pegar um ônibus para se dirigir ao setor onde morava. Sem delongas, velha queria dormir aqui em casa. Ela aparentava um estresse desnecessário e uma preocupação descabida, do estilo de levar as mãos à boca e pronunciar, com voz penosa, “ah meu deus...”, como se o fato de sua chave ter ficado na bolsa da irmã fosse semelhante ao esfaqueamento de Marion Crane no chuveiro por Norman Bates. Sabe, essa é a primeira coisa que eu quero ressaltar aqui: não é a primeira vez que vejo velhas alimentando preocupações com bravas doses de exagero – a primeira vez que presenciei isso foi quando estava pegando carona com uma amiga da minha mãe, para ir de Brasília para Goiânia num fim de semana. No carro estava também a mãe dessa amiga, e, quando estávamos saindo do setor Sudoeste, no qual ela morava, começou a chover. O fato é que estava chovendo e ventando, o não-fato é que a velha ficou horrorizada e, como sempre elas fazem, levou a mão à boca e, abaixando as sobrancelhas, como sempre elas fazem, pronunciou “ah, meu deus...” seguido de um “e agora?... que horror...”.
Minhas hipóteses:
1) As velhas da atualidade com suas vidas vazias e repletas de suas rotinas que não preenchem nada precisam encontrar Conflitos (
http://persuasiofalsa.blogspot.com/2007/05/o-conflito.html) para se alimentarem, problemas para saírem da linha comum na qual vivem.
2) As velhas da atualidade perdem seu senso de realidade (o que é fato que ocorre, devido a infinitos motivos, como, por exemplo, as rápidas mudanças da contemporaneidade e a lentidão dos idosos) e por isso deixam de ter o tato que as pessoas geralmente têm, o tato de sentir as situações como elas devem ser sentidas, ou seja, de não saber distinguir um momento de preocupação com a festa de aniversário da bisneta.
A outra coisa que eu queria discutir aqui é acerca de um intradiscurso (conversa que tive comigo mesmo) naquela situação. Quando a velha disse que queria dormir lá em casa, eu me vi relutante. Mentira, eufemismo: eu não queria que ela dormisse lá. Ah, sabe?, eu não queria. E, logo, me veio o clássico argumento na cabeça:
“Devemos respeitar os mais velhos, Felipe Ricardo!”
Então me questionei sobre a origem dessa afirmação. Creio que ela deva ter surgido, muito provavelmente no oriente, ou em algum local em que a idade idosa era sinônimo de basicamente duas coisas:
1) experiência de vida
2) acumulo de um largo arcabouço intelectual, devido ao contato durando muitos anos de vida com fontes de intelectualidade, cultura e afins.
Claro que para a sua época esse argumento é extremamente válido, a priori (a priori!). Porém, será ele hoje em dia? Eu acho que não. Não serei mole em dizer que praticamente não conheço nenhum velho próximo de mim que satisfaça tais requisitos que citei ali, sem duvida alguma. Eu nunca apreciei muito essa idéia que ditava que devemos respeitar os mais velhos, mas isso não significa que eu os desrespeitava. Acho ridículo esse tipo de desigualdade infundada que se cria nas mentalidades, separando os mais velhos dos outros, como se anos a mais de vida fosse sinônimo dos dois pontos que acima citei, o que de fato, na contemporaneidade não é. Hipocrisia ridícula oriunda de um nível de análise pífio da mentalidade das pessoas do nosso tempo.
Se vamos respeitar os mais velhos (o que eu acho que deve ser feito) não vamos respeitar por causa dos dois pontos que eu disse, pois eles não correspondem mais a realidade, são falácias. Que os respeitemos como damos vantagens aos deficientes, por os velhos (e eu não tenho pudores de dizer isso) carecem sim da esperteza que jovens e adultos têm, é fácil observar isso. (Não generalizar o que lê, leitor!). Ou então, que os respeitemos como devemos respeitar todas as pessoas de todas as idades, por educação e para propiciar uma boa convivência social.
Enfim, eu reconheci que não havia mal algum em ela dormir lá em casa, e inclusive reconheci que devemos, por mais moral cristã que seja essa afirmação, ajudar os outros quando necessário e importante, como era o caso. No entanto, não foi necessário: a filha dela interfonou dizendo que estava subindo para entregar-lhe a chave.

terça-feira, 5 de junho de 2007

Prá lá é Prá cá


Sabe que eu estou sentindo que ele não vai? E que eu to sentindo que esse sentimento é daqueles que eu sei que está equivocado?
Odeio quando sinto essas coisas.
Não, na verdade adoro. Dá pra saber do futuro...

Revolução da Revolução


"Nós não nos deixaremos esvaziar de nossos sentimentos para nos encher artificialmente, como pássaros embalsamados num musel, de palha, de cinzas e de insípidos fragmentos de papel exaltando os direitos do homem."

Edmund Burke, o primeiro crítico da Revolução Francesa.

Ácido, feroz, radical, inovador. Definitivamente intenso.

domingo, 3 de junho de 2007

Doce de Maçã

O Beto me presenteou hoje com muitas maçãs, umas seis. Como eu não queria as comer, fiz um doce. Me lembrei da receita que minha mãe sempre faz com abacaxi, em calda, que fica uma coisa louca, então pensei em fazer uma adaptação. Como não tenho tanta prática e nem habilidade na culinária doce quanto na salgada, entrei no deus, ou seja, google, pra pesquisar algumas ideias.


Digitei "doce de maça", o primeiro site que saiu me fez cair pra tras de tanto rir. Estava bem assim: "Doce de Maçã: Olha, eu garanto, que apesar das 8 horas na panela de pressão, é uma receita rápida." Tá, né, já que você garante!


Acabei fazendo o doce com o que eu já tinha em mente mesmo. Não sei se ficou bom, vou descobrir jájá.

domingo, 20 de maio de 2007

Esse não é um título metalingüístico e nem contraditório!

Rodopiou como uma garça podre, e volta no vestido verde de lama. Eu não quero mais isso, eu não quero mais isso. Eu sou um preguiçoso! Um preguiçoso e eu mereço morrer! Olha lá novamente o drama exacerbado! Você não consegue ficar sem ele, não é? Estou cansada de repetir isso constantemente, essa questão do sui dramatis. E, me largue! Saia! Inovações mais uma vez trilhando o seu caminho velho! A mesma coisa, me fazendo dizer o mesmo sempre! Porra. Estilhaços de sangue na parede.

sábado, 19 de maio de 2007

O Conflito

Por que é que precisamos sempre do Conflito?

Que limitação estranha é essa que nos prende junto à essa necessidade injustificável de encontrarmos um conflito? Eu costumo sempre dizer que acho a vida desinteressante por demais - não, eu acho as vidas interessantíssimas, são as maiores formas artísticas - mas, sabe, eu acho que do jeito que eu gosto de dominar e construir e destruir e compor e estruturar e dar cor e plantar - e tudo isso que deriva do criar em si - as coisas, a vida ficaria mais interessante, bem mais interessante. E é por isso que os conflitos me atraem. É, na verdade, a primeira frase desse texto é para mim mesmo, talvez somente para mim. Mentira, duvido que seja somente para mim. O fato é que a idéia do conflito me atrai, por demais.
Mas, entende?, por que é necessário um conflito para que algum elemento ganhe destaque? Por que é necessária uma provação para que o herói seja mesmo o herói? Essa última frase não expressou muito bem o que eu queria dizer, vou melhorar. Por que não conseguimos ver a beleza com êxtase máximo nos elementos isolados de um conflito, a parte de um enredo? Será que isso é com todos, ou só comigo?

sexta-feira, 18 de maio de 2007

Estudante da UnB tem Bicicleta Roubada no Campus


Correio Brasiliense, 17 de maio de 2007


No último dia 16 de maio, quarta-feira, o estudante Felipe Ricardo Baptista e Silva, aluno do segundo semestre de Relações Internacionais na Universidade de Brasília, teve sua bicicleta roubada na frente do prédio de sua própria faculdade.
O garoto afirma que havia estacionado o veiculo na grade específica para bicicletas, juntamente com outras bicicletas, por volta das nove horas e trinta minutos da manhã de quarta, na frente da entrada lateral da FA, o prédio onde se centraliza o seu curso. Ao fim do dia, ao retornar ao local para retirar-la, deu conta de que ela não estava mais lá.
Poucos minutos antes do fechamento desta edição, o reitor Timothy Mulholland, comovido com o caso do pequeno Pi, afirmou que a Universidade dará um carro ao aluno e custeará a gasolina durante toda a sua vida acadêmica.

terça-feira, 15 de maio de 2007

A Indecisão e as Frustações do dia de hoje me impediram de decidir esse título


Seria algo mais ou menos assim:

Título: Liberdade é irmã gêmea da verdade!
A liberdade é uma impossível e paradoxal tentativa de conciliação que nunca encontrará um fim.
A verdade é uma impossível e paradoxal tentativa de conciliação que nunca encontrará um fim.

Mas a insatisfação e a amargura do dia de hoje me impeliram a dar um tom mais sério e seco ao texto. Ficaria algo assim:

Título: Liberdade (não, não seria esse o título! Não meeesmo!)
A liberdade é uma impossível e paradoxal tentativa de conciliação que nunca encontrará um fim.

Enfim, dizer o que eu pensei em postar é apenas uma forma de fazer isso aqui ficar um pouco mais interessante do que isso encontra-se nesse momento na minha cabeça, por mais que eu dê um valor astronômico a isso tudo.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Análise - Adeus, Lenin!


Este filme mescla perfeitamente bem informações históricas com uma interessante construção cinematográfica. Pretendo abordar, nesta análise, esses dois lados do filme, que se completam belamente.
A “Berlim dividida” e conflituosa dos anos 80 é o pano de fundo para a história. Vemos uma família composta de três membros, Alex – personagem cujo olhar é a base para como o filme será desenvolvido -, sua irmã e sua mãe. Após um acidente, a mãe de Alex entra em coma por oito meses, e, durante esse período, ela perde uma enorme gama de acontecimentos políticos e sociais que se desenrolam com a transição econômica.
O primeiro aspecto histórico que abordarei se refere à velocidade dos acontecimentos que o filme retrata. Em um espaço de tempo menor que um ano, ocorrem mudanças importantíssimas, tanto no espaço nacional alemão quanto no meio internacional, que se resumem basicamente a queda das tentativas socialistas no mundo. Aponto aí uma característica que está intrincada no mundo atual: a veloz pós-modernidade, em que tudo muda rápido; fatos históricos recentes se tornam passado em um piscar de olhos. Para comprovarmos isso, basta analisarmos a magnitude da queda do socialismo no mundo, um processo extremamente complexo que consegue finalizar-se em menos de um ano.
Outro ponto a ser discutido é a forma com que o “pano de fundo histórico” influencia diretamente na vida das pessoas. A família alemã de Alex, assim como os outros personagens do filme, atravessa os acontecimentos da época sentindo na pele suas conseqüências, dificuldades e nuances. Isso pode ser exemplificado por algumas cenas, como por exemplo, à em que Alex corre desesperadamente em um antigo supermercado nacional procurando por produtos que ele facilmente encontraria a alguns meses atrás, mas que agora estão em falta devido à desnacionalização do país; ou então os inúmeros takes que focalizam a rua da casa de Alex mostrando a grande quantidade de mobílias que os moradores abandonaram por inúmeros motivos. Vemos assim que o impacto dessas mudanças não se resume ao panorama político-social, mas se estende ao cotidiano e à ideologia das pessoas.

Grande parte da beleza do filme se encontra na estrutura que ele usa para contar a história. Podemos, através de uma boa análise cinematográfica, destacar quatro “planos” sendo desenvolvidos no filme, ou seja, três “histórias” que estão sendo contadas ao mesmo tempo. A primeira, já destacada, é o contexto histórico, o background. A segunda trata da dinâmica familiar, sob o olhar de Alex. A terceira traz ao espectador uma antiga história dessa mesma família, que se viu dividida junto com Berlim; refiro-me a história do que ocorreu com o pai de Alex, que preferiu ficar na Berlim ocidental, enquanto a mão levou os filhos, ainda pequenos para a porção oriental. A quarta, que acrescenta um tom especial ao filme, é a própria mentira de Alex, o próprio mundo que ele inventa como se tivesse o poder de escolher os rumos da história. Essa é a parte mais importante do filme, pois aqui há um diálogo com o espectador sobre o próprio papel da história, construindo questionamentos acerca de como a história se constrói e qual é o papel das pessoas perante a ela, além de também apresentar o interessante lado criador e sonhador do personagem Alex, que faz da sua própria vontade sua mentira mais bem desenvolvida.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Análise - Perfume: A História de um Assassino


Não acho fácil falar de Perfume. Tom Tykwer é autor de outro filme que gosto muito, o famoso Corra, Lola, Corra. E não sei muito bem como começar essa análise. Vou atirar algo para o alto.
A primeira coisa que me chamou a atenção, e que mais me chamou atenção, foi a iluminação do filme. Que coisa interessante o que ele faz com ela! Parece-me que ele usa além de posicionamentos muito fortes – digo fortes porque deixam em destaque a sua artificialidade e intensidade – tonalidades diferentes das quais haveria em tais ambientes, como por exemplo, a cor amarela direcionada diretamente para o rosto de uma moça em um beco escuro. Achei muito bonito e esteticamente rico esse trabalho.
É um filme com uma fotografia fantástica, diria até que exageradamente bonita. Além disso, os lances de câmera, os enquadramentos e ângulos, estão muito bem trabalhados.
Quando fiquei sabendo que Perfume seria filmado, imediatamente pensei que seria um trabalho difícil, mas que, se bem feito, poderia render um filme nada menos que maravilhoso. O impasse de filmar essa história seria justamente romper com os limites da linguagem cinematográfica. Oras, Perfume fala de essências olfativas, como transmitir essas sensações ao espectador?
E é exatamente aí que eu acho que o filme peca. Ao assistir, vi todo um cuidado para tentar transmitir o que a personagem principal sentia, os odores e cheiros mais diversos, mas que, no entanto, acho que não foi o suficiente. Basicamente, o que se faz é uma associação de imagens, mostrando o objeto cujo cheiro o personagem principal sente. Funciona mais ou menos assim: o personagem sente algo, e logo, há um bloco de imagens no qual o diretor expõe “o odor”. Acho pouco, muito pouco. Falta uma maior diferenciação entre cada cheiro em si, e com elementos muito específicos (algo que faz muita falta) principalmente nas seqüências em que são apresentadas as vítimas do assassino, onde não se percebe visível diferença entre elas(para mim, todas elas tem apenas cheiro de mulher). Falta uma trilha sonora intensa e muito característica que aluda a cada odor em si, as sensações que ele traz. (Além do mais, a trilha do filme é toda muito pobre). Falta um trabalho especifico com o ritmo de câmeras, tentando acompanhar as nuances que tal cheiro tem, ou reações que ele provoca. Falta, falta, falta. Na verdade, isso tudo são valores prescritivos, ou seja, como eu acho que o filme deveria ser construído.
Percebi que o filme entrava em um “patamar superior” com a cena da caverna. O assassino, saindo de Paris, encontra, em campos ermos, uma caverna e percebe que lá não havia nenhum outro cheiro, a não ser o de “rochas mortas”. E é dito que lá ele poderia descansar, pois sua mente poderia se situar em nada além dele mesmo. E, logo, a próxima cena mostrada, é ele, ainda na caverna, com cabelos e barba longos percebendo que havia perdido o seu cheiro, perdido sua própria essência. Bastante epifânico! Mais tarde, ele se dá conta de que ele nunca teve cheiro algum, e isso causa um abalo na sua pessoa, já que, para ele, o ponto mais importante de uma pessoa é o próprio cheiro, pois é com o qual que as outras se lembrarão dela, ele diz que o cheiro é a alma da pessoa. Acho que aqui ele aprofunda o seu sentimento de ser diferente dos demais.
Acho que Perfume se configura muito político. Digo isso me baseando nos últimos quarenta minutos. A cena da “morte” de Jean-Baptiste é um ótimo representante de toda essa politicidade da obra. Podemos, aí, fazer inúmeras interpretações. Poderíamos dizer algo sobre uma essência – e o que viria a ser essa essência? – que tem o poder de dominar pessoas. Poderíamos dizer algo sobre como as pessoas se rendem com imensa facilidade, tendo seus ideais e vontades subjugados, talvez por uma sensação. Poderíamos dizer algo sobre a importância das aparências frente à todos, e também a inescapabilidade à essas aparências, a sina do ser humano.
Também achei interessante o relativismo que o enredo nos traz. Teço aqui perguntas que facilmente podem ser respondidas: O que motivava o assassino? Era amor? E o que trazia tanto repúdio e asco ao povo à imagem do assassino? Tudo isso é quebrado após a seqüência da condenação, da “morte”, a qual representa o ponto de inflexão do filme: o povo se torna súdito de um assassino, que antes condenou à morte, e o assassino se cansa, por perceber que nada mais valia à pena, já que a única coisa que ele não poderia ter e que nunca teve, foi o amor.
A questão política é fechada de maneira belíssima, com a cena-quase-final, que ocorre no local de nascimento do personagem, em que ele despeja todo o perfume em sua cabeça e é devorado pelos habitantes do local, após ser glorificado e adorado pelos mesmos. Ou seja, como não lhe interessava mais a poção do poder que ele havia criado, ele morre com ela, com a corrupção que ela traz.

quarta-feira, 9 de maio de 2007

A Chave e a Coisa


Como assim? Que coisa! Que simbologia ridícula! Estava eu me alimentando de um delicioso pacote de Bono recém comprado, o qual possui 21 cm de altura e 4 de diâmetro, sabor Floresta Negra (o chocolate puro e convencional me enjoa), quando sentei-me no sofá e liguei a porra da televisão. Me deparei com toda a magia dum ser vestido de branco, meio gordo, desajeitado, esquisito e velho: o Papa. Opa!, o papa.
Como eu queria estar em São Paulo na sua recepção! A transmissão televisiva estava divertidíssima, e toda a energia e animação católica me consumia! Não agüentei, me levantei do sofá e me pus a dançar animadamente algumas das músicas que o coral de não sei onde cantava.
Voltando: que simbologia ridícula! Deus do céu! O prefeito de São Paulo, como de costume, ofereceu ao papa A Chave da Cidade. ????????. A chave? Como assim? O que ele quis representar com isso? Absurdo! Por que, assim, pelo que eu sei, por exemplo, uma senhora de 63 anos de idade, quando recebe uma pessoa importante em casa, ela oferece uma xícara de chá, outras pessoas, um cafezinho, eu dou um abraço. Mas uma chave? Uma chave enorme, feita de sei lá qual metal, que nem cabe no bolso do bom velhinho! Teria sido muito mais interessante ele ter ganho um guarda-chuva! Ó, não, um guarda-chuva não. Não se sabe o que essas pessoas podem fazer com objetos longos...
Tá, uma chave. Tudo bem. Vamos lá, o que significa essa chave? Significa que o papa agora comanda a porta de São Paulo? Que ele pode entrar quando quiser? Ele vai ficar com a chave pra sempre? Ele pode levar para casa? E mandar, na surdina da noite, fazer algumas copias e vendê-las ao PCC? Sei lá, nunca se sabe. E outra, deve haver muitas copias dessa chave, porque não é a primeira vez que eles entregam ela a visitantes. Tipo, Stálin poderia ter tido uma chave de São Paulo? “Que tal uma chavinha aí, Hitler?”
E agora, para finalizar com classe, glamour e muito estilo, vou fazer alguns joguinhos de palavras com a palavra Papa (Espera! Palavra vem de lavra, que corresponde a trabalho. Mas o papa não trabalha! Quer dizer que papa não é uma palavra? Qual a natureza do papa?). Então, vou fazer joguinhos! Vamos lá, crianças! (veja a jovem professora do pré, muito feliz e animada na sala de aula).
Papa-pomba-pouco-papa-pomba!-popó-papa-o,papa,pipocou-papa,don’t,preach-papa,papel-papa,puto-papa,papinha,de,neném-papa,bicho,papão-papa,pacato-a,pata,do,papa-o,papa,papou,pouco,comamais!
O papa é pop! Meu deus, Que jogo bom foi esse último! Tenho que fazer uma música com isso! Que tal: “O papa é pop / O hippie é pó-óbre!” Muito bom, muito bom! Não, não, não me aplaudam! Aplaudam Deus (dedos cruzados), pois foi ele quem me inspirou. (Logo, Deus é minha musa??? Que coisa!). Mas o que estou dizendo!, Deus não me inspirou! Deus me CRIOU! ... ... ... E qual foi a inspiração dele? Eu? (logo sou Deus?, defina “logo”?). Logo sou a musa de Deus? Meu deus!, eu sou Maria! Ó! E, eu sempre querendo aplicar o complexo de Édipo nas coisas, me, desculpe, me, desculpe, pela, falta, de, tomate!

“Não se esqueça que: nem tudo que eu falo aqui, corresponde à minha opinião; nem tudo que eu digo aqui, corresponde ao que eu penso; nem tudo que é aqui é verdade. Até mesmo essa afirmação. Ou não, talvez eu tenho escrito isso aqui com o puro intuito de me esquivar de críticas alheias ou atritos com leitores.”

A Joca


Ah, como a querida é uma pessoa querida. E foda, demasiado.
Ela disse:

"hoje eu estava fazendo prova e tive um insight.eu gosto de filme plástico,betolucci,almodovar.mas saquei que eu tenho uma meso-visao critica.saquei a sagacidade de Godard em Nostra Musica.imagina colocar guardas do paraiso, como guardas norte-americanos.não gostava pq talvez não intendia com meu tbm meso-prestar atençao.tudo isso deve ser obvio pra vc(não só que me faltava questao critica,mas como a propia visao critica que vc tem para filmes).mas pra mim foi uma puta descoberta meio logica do tipo:"nossa procurei meu oculos a casa inteira e ele estava na minha cara".estou escitada e triste.como melhorar meu senso critico?eis a questao...
***seria essa a reproduçao do texto que esta no orkut do beto ou o original?ambos são meus criticos prediletos ;}
bjoss doces"

terça-feira, 8 de maio de 2007

Teorizações


Ontem estava me perguntando por que motivo me atraio tanto por teorizações. Me atraio por elas, gosto de compreender as coisas, sei lá, ver as coisas que em mim são desorganizadas organizadas, por mais que eu goste da desorganização. A resposta é que eu não sei o motivo. Levantei hipóteses. Consegui estruturar algumas: a prática, a discussão e o discurso.
Quanto à prática, refuto totalmente. Não me sinto interessado por teorias tendo em vista assumir tal posicionamento no mundo ou adquirir tal ideologia. Exemplo disso, gosto de ambos os lados, aprecio autores que são o oposto um do outro, o que seria impossível se meu foco ao ler Teoria fosse a busca por uma posição embasada.
A discussão já me parece bem fundada. Trabalhar com Teoria e se envolver com elas, tem sim em mim um fundo de possibilitar discussões e, inclusive – o que é o mais importante – tem embasamento no nível de argumentos e contrapontos. Por mais que esse, sinto eu, não seja o único motivo nisso tudo.
A hipótese final, que tem se firmado bastante lógica hoje em dia, é que as teorias pelas qual me envolvo servem como o pano para meu entendimento do discurso. Ou seja, para a análise do que é dito. Para a análise do que é dito, da forma como os argumentos se estruturam, se se fazem válidos ou não, quanto às incoerências, e inclusive contrapontos. Acho importante dizer que a análise do discurso não é a ferramenta usada para criticar, sei lá, politicamente as idéias de Maquiavel, mas sim a ferramenta utilizada para perceber as nuances, inclusive retóricas e estruturais do que é afirmado. Logo, a análise do discurso é desprovida de ideologia. Mas isso não é novidade.

sábado, 5 de maio de 2007

A Interpretação


Muito se discorre sobre as técnicas de interpretação. Um amigo meu me contando sobre uma conversa dele acerca desse assunto com uma estudante de teatro me transmitiu a opinião da moça. Ela disse que, dentre as inúmeras técnicas que são propostas aos atores para interpretarem, existe uma – na minha opinião a mais conhecida, mais senso comum, porém a mais difícil – que é a que propõe que o artista encarne o personagem. Ela deu procedimento ao seu discurso, afirmando que ela não gostava muito dessa técnica e que achava que ela era prejudicial ao ator, pelo fato de que este deve se preservar. O nível de encarnação deve ser tamanho que a pessoa do ator se apague, passando de um estado de monopersonalidade para um outro de esquizofrenia, e, logo em seguida, para um estado final – no qual o artista encontra-se pronto para encenar – que é a “plena” dominância do personagem. Também é fácil observar que, um bom modo de avaliar o trabalho de um ator é medindo esse nível de dominância que ele permite ao personagem dentro de si, especificamente nessa técnica. (acho que não preciso dizer que, por melhor que seja o ator, nunca essa dominância da personagem será plena!). Tendo isso em vista, ela afirmou que essa técnica seria prejudicial ao artista, pois ele deve se preservar; por exemplo, em uma cena em que o personagem comete suicídio, o que ocorreria? Estando o ator perdido na personagem, ele cometeria também o suicídio.
Expresso minha indignação. Argumento ABSURDO! É difícil perceber que as coisas não funcionam assim? Por que, na minha opinião, essa técnica é uma das melhores, mesmo sendo a que exija trabalho mais árduo. E outra, cabe ao ator a combinação dessas técnicas, cabe a ele ter a sutileza de perceber quando é adequado usar essa ou aquela técnica, sabendo contrabalancear e equilibrar o plano de atuação. Além de que, como já disse, nunca (nuca diga nunca!) o personagem conseguirá adormecer toda a personalidade da pessoa, o que impede que ela faça algo desse tipo, que agrida fortemente ela mesma.
Enfim, quero estudar mais sobre o assunto.

sexta-feira, 27 de abril de 2007

Dia Dois


Eu sou um espelho e todas as coisas que faço são voltadas para um espelho. Penso nos meus reflexos, mas durmo com fantasmas, e a minha lente continua quebrada. Tudo o que eu escrevo – e o tudo se refere também a isso – é um reflexo pensado. Criar coisas envoltas, dar vida, ver a realidade perder na ficção e a ficção ursupar a realidade com unhas pretas. E, acima de tudo, adorar que vejam isso.


O que eu quero para a minha literatura é fazer algo escancarado, uma criação que saiba que é uma criação, com doses cavalares de consciência, e que com isso sinta sua sorte passando por seus sentimentos.


Hoje morre minha criação artística impessoal. Quero algo imbricado, em que o verdadeiro tenha como caixa-preta o falso, e esse, um labirinto sem curvas daquele.


Mais uma vez (olha as repetições, felipe ricardo!) não quero poder distinguir o que há de pessoal no que eu escrevo do que é inventivo.

quinta-feira, 26 de abril de 2007

Pragmatismo de la Mancha


Aprendi a ser pragmático. Ou melhor, considerando que esse não é o tipo de coisa a se aprender, eu digo: o pragmatismo entrou em mim. Definitivamente. E, eu digo isso de uma forma muito consciente e embasada.
O que me agora me incomoda na falta de um senso pragmático é o descompasso. Agora, porque antes não conseguia perceber, era um incapaz. Que descompasso é esse? É basicamente aquele se nasce do atrito entre valores descritivos e valores prescritivos, decorrente de suas aplicações. É algo simples, é como se tivéssemos uma geléia de moldar, com a qual desejasse fazer uma escultura, ou sei lá, algo do tipo; e, ao invés de trabalhar manualmente com a peça, o artista – sim, porque o social também é arte – reclama e em um monólogo muito consciente diz que gostaria que a massa fosse de uma outra textura. Até então tudo bem. A problematização nasce quando o trabalho que ele viria a realizar fica impedido de tomar forma devido ao fato de que a peça não é de um modelo o qual ele idealiza.
Decorrente disso, tiro uma outra coisa: essa questão da idealização me pareceu curiosa agora. Como é interessante como esse artista deposita em uma idéia interior sua um valor que faz ele crer que seja essa a sua verdade, ou melhor, que seja esse o melhor caminho, ou algo do tipo...
Só digo que tenho medo. Medo, por tudo que ouvimos está contaminado, talvez até mesmo essa informação. Ai, que nojo desse tom esquerdista revoltado e vago! Preciso fazer uma correção: Por favor, não me refiro à contaminação oriunda da mídia manipulada blábláblá não, isso não se encontra no cômodo das coisas que eu viria a dizer, pelo simples fato de que isso está batido de mais, já ficou em voga de mais, - pensando agora eu acho que deveria haver uma lei que normatizasse essas coisas, que, por exemplo, evitasse que um tema ficasse tempo de mais no agenda meeting até se tornar clichê-, eu me refiro à contaminação das lentes. As lentes de cada um. Antes de conhecer esse termo, eu falava em sublimação de opiniões, que em pouco tem a ver com o conceito freudiano de sublimação, mas agora que o descobri, me sinto mais feliz.

sábado, 3 de março de 2007

Sai daqui, saí daqui!

Extremado no meu cansaço de não por em prática o que eu quero. Extremado na minha preguiça de não produzir. Extremado nos extremos de uma latencia que me enjoa e deixa mais ainda preguiçoso. É definitivo agora, adoro falar isso, agora sim, não deixarei nada por terminar(mais no sentido de "não terminarei mais"), e porei mais as coisas pra fora. Ou melhor atirarei as coisas para fora. Sabe, não encaixa eu ficar guardando coisas na minha cabeça e não desenvolvê-las, e não vê-las prontas, sem produtividade para compensá-las. É defintivo agora, já decidi que não será mais assim.Mas, olha só!, também são definitivas e eternas e múltiplas as vezes que eu digo isso das coisas, e nada muda, as vezes em que eu me proponho isso, e acordo no dia seguinte derretido, estendido na cama e derretido. E mais uma vez, talvez eu só tenha dito aqui que isso é definitivo somente pra ter dito isso sobre alguma coisa. Como é lindo dizer que algo será de tal forma.Mas eu sim concordo que não há logica alguma pra que eu prossiga com esse nível de produtividade pífia que tenho. Sabe, a minha auto-crítica é enorme, e ela é um dos motivos para que eu me pode, para que eu leia algo e diga "horrível! boçal! limitado! pouco inovador! fraco!", e acabe por abandonar tal projeto ou atirá-lo no terceiro canto do meu quarto quadrado. Alguém que pouco me conheça poderá dizer - como já me disseram antes - "ah, force-se a escrever, ou escreva qualquer coisa sempre que quiser, ou que precisar, pelo menos para sair disso, e tal..." E tal, uma ova! Comigo não é assim, comigo não é assim, e não quero dizer como é comigo.Está vendo? E eu nem gostei dessa porcaria toda aqui. Não mesmo.Vai embora, sai daqui, saí...

Toddy Noturno

Hoje eu me levantei da cadeira, me dirigi a cozinha e preparei meu imenso copo de leitinho-com-toddy gelado. Comida da madrugada. Sentei-me na cadeira de novo. Bebi, quando estava no final, tive que emborcar o copo, e o pescoço também para que o restinho viesse a cair na minha boca. Emborquei-me, bebi. AO voltar da posição em que estava, segurando o copo de vidro na minha boca, virei os olhos e me vi fazendo uma expressão muito curiosa. Digo curiosa porque se tratava de uma expressão voltando-de-uma-posição-de-beber-um-resto-de-algum-líquido-num-copo-alto. Era uma expressão de esforço, ou de um mergulhador que acaba de retornar à superficie após uma busca lá em baixo. Ou então de uma pessoa que estivesse sendo sufocada e voltasse a respirar. Não que haja alguma metáfora nisso, não, não há. Esse parágrafo aqui é só uma descrição, sem conflito algum. Bom, a não ser que você queira dar um conflito a isso. Fique à vontade.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

Fragmentações

Desculpe-me por não ter, ou ter e não querer fornecer, uma poçãozinha rocha-choque. E é por isso que as coisas na vida tem que ser fragmentadas, saca? Lembra d'a gente conversando sobre isso? Têm que ser fragmentadas para que você não escape do "viver precisando de tais coisas". É simples. Acho que você pegou exatamente o que eu disse. Sabe quando assistimos um filme foda, que nos faz pensar muito sobre e depois desenvolvemos muito a idéia na nossa cabeça conversamos, descobrimos coisas, mudamos concepções, percebemos outras coisas, e tal? Então, ai você vai dormir à noite, e no outro dia acorda em um plano MUITO mais baixo de raciocínio, de volta a normalidade, no qual você pode até se lembrar, pode até saber de tudo o que passou na noite anterior, mas não se sentirá do mesmo modo. O sentimento se perdeu. Ocorre a fragmentação. Não conseguimos levar a coisa a diante, sem que haja uma quebra que nos traga de volta para esse poçode paredes altas que é a vida - nossa, que metáfora brega!. Pode ser ate que depois de algum tempo voltemos a ter de novo essas percepções, e teremos sim, várias vezes. Mas haverá também inúmeras outras fragmentações para não deixar que essas coisas continuem consecutivamente. Pronto, pode fragmentar agora.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

Ziara

Pelo o amor de deus me mate! Vá com deus, essa é a frase que você sempre diz, sem motivo algum, talvez uma herança familiar, talvez uma. Pelo amor de deus me mate! E eu digo isso com essa voz estribuchada porque você quer que eu tenha essa voz. Mas que diferença faz, leitor? Você só poderá ler minhas palavras, e não ouvir-me. Mas como você acha lindo criar um clima! Oh!, um clima! Como você adora me fazer falar com ele não é? E olha só!, você é bom mesmo! Se podes perceber - realmente, você foi muito bom no uso da segunda pessoa - no paragrafo anterior há um diálogo duplo!, um diálogo duplo! Hablas Duplicata!, - que lingua é essa? ah, não importa! - pois fala-se com o meu amigo que está de frente a mim, e com o meu outro amigo que está dentro de mim. Ou será que fora? Será que fora senão dentro? Dói. Ah, mas dói. Cala a boca. Se dentro, saia! Eu não delego a ti as minhas escolhas. Eu tenho esse direito!, ah, como?, não me faça dizer isso! Eu não tenho direito algum de ter direito algum! Brinquedinho liquido! Onde está o copo? Crudelis! É!, se é assim, pelo menos eu posso reclamar! - é fato que eu posso reclamar pois isso será extremamente bem vindo ao seu drama constante. Me criou para entre-te-lo, mas me tem presa a você! Fará bem a você, é, fará! Ou foi para os outros? Entre-te-lo ou entre-te-los? Ah! Mas você é os outros! Não há muros aqui! Você é os outros! E digo, alguém percebeu sua metáfora do espelho noite passada. Os outros é você na frente do espelho. E, por medo, me faz dizer: Não sei até onde isso tudo é verdade. Como tudo, não é?

domingo, 11 de fevereiro de 2007

Voz

Quanto tempo. Quanto tempo eu tive até agora. Eu não sei, eu não sei mais. Parece-me que tudo o que eu já sou se foi, e nada mais me aguarda no Hall dos Sentimentos Perdidos. O quarto está cheio de gente, vazio de gente. Ah, e como eu sinto falta daqueles tempos; que tempos! É estranho eu não achar estranho esse doer, essa falta. E essa é definitivamente uma palavra estranha, uma palavra estrangeira, pois as pessoas só passam a conhecê-la realmente quando a sentem, por que as verdadeiras palavras são assim, ocultas por debaixo de um pano negro, dificultando sua própria revelação. Que corredor é esse? Essa não pode ser a minha casa. Não, definitivamente não é. Mas eu estou gostando do meu medo.
Quantas palavras eu ainda tenho a descobrir? Eu me melancolizo com isso, a ver que as coisas são definitivamente extensas e enormes. Mas ao mesmo tempo sinto que é isso mesmo, é, que é isso mesmo o que deve ser para ser. Com apenas essa finalidade? Sim, ser. Sir, sem. Que simbiótico. Eu me simbiozo como um gozo e me simbiolizo nesse jogral ao aceitar esse sim e ao ser esse sim.

Vou escrever um dicionário!

Não, não vou mais.

Refuto essa idéia porque os mágicos vieram até mim. Vieram até mim e pediram para que eu parasse com tudo isso, para que eu deixasse isso tudo de lado e fosse embora. Eu não fui. E nem vou. Os mágicos são mágicos. Eu sou uma pessoa. Desestrutura. Que desestrutura mais desértica! O que é isso? Não estou mais só, tenho agora uma pessoa ao meu lado. Não, ao meu lado não; na minha frente. Não há ninguém do meu lado. Nunca houve.

Voz.

São só seus olhos, só seus olhos gordos. E verdes. Largue-me! Estou cansada e nojenta! Ampute meus membros inferiores e me deixe correr livremente por aí, por favor! Você é a única pessoa que poderia fazer isso a mim! Eu lhe peco! Eu lhe peco! Que será então se eu continuar assim?
Quero derreter e me refazer em papel-maché. Para ser um ser frágil e delicado, cor-de-rosa. Não, não disse rosa-choque, não quero; quero rosa claro, clarinho, e leve. Porque é assim que eu gosto das coisas, leves. Drama, drama. Não pense que deixarei você no chão, absurdo! Absurdante. Levante-se. Levante-se! Pare com isso e ande! Ande!
Onde estão os livros? Volte para o corredor amarelado! De que serve perguntar onde estão os livros? Você se recusa escrever um dicionário. Volte para o corredor amarelado! Drama, drama. Derreta, então.
Eu não lhe culpo. Não mesmo. Está cada vez menor. Cada vez
Menor.
Como? Cada vez menor, cada vez menor.
Volte! Porque as frases estão cada vez menores?
Derreta!
Você está derretendo
Meu
Bem.
Quero derreter e me refazer em papel-maché.

sábado, 10 de fevereiro de 2007

Pueva

Meu nome é pequenos gestos. Mas eu digo que eu só tenho esse nome porque você quer que eu o tenha, porque, você além de detalhista, gosta de imprimir às pessoas suas características favoritas. E, logo, deixo de ser uma pessoa e me vejo uma personagem. E uma personagem que não é apenas uma posse, pois você não só me possui, não só me criou, como também eu dependo de você, você que derrama o batom vermelho na minha cara. E então eu questiono, é o “depender” a questão central nisso tudo? Você me cria porque gosta (fique a vontade para substituir esse verbo) que eu dependa de você? Que eu viva para você? Mas talvez haja uma abordagem mais otimista (me expressando assim, até respiro um ar cientificista, mas, perdão, você não quer que eu o tenha, perdão), uma abordagem na qual eu não “dependa” de você, mas sim (e agora eu reservo a mim o direito de trocar o verbo) que eu “complete” você, em uma simbiose intelectual (perdão mais uma vez). Eu gosto mais dessa segunda abordagem, mas não sei se ela é a mais verdadeira, ou se eu realmente gosto mais dessa, porque você pode estar apenas impondo isso a mim. E, mais uma vez, considerando que a segunda abordagem seja verdadeira, impor isso tudo a mim, é impor isso tudo a você mesmo. Porque você gosta. Sim, você gosta e se orgulha. Terminará e lerá e apreciará. E é como se você já soubesse tudo o que eu digo (e você já o sabe), mas mesmo assim enfia essas frases entre meus dentes e se delicia com tudo isso. Vá, vá embora. Deixe-me fumar meu cigarro em paz. Eu sabia que você me faria dizer isso no final disso tudo! Agora procure um título. Meu nome?

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

Mergulho


Estava uma delícia, cenoura era uma delícia. Créock. Mordidas e mais mordidas alaranjadas e bem geladinhas. Deglutições. Créock. Aquele era o almoço e o café do dia anterior. Mastigações. Créock. Créock. Acidente de repente: a cenoura e o talo do dedo receberam a mesma mordida. A unha foi-se. E do alaranjado fez-se o vermelho. Não se assustou, e, logo, deglutiu o pedacinho do alimento e do corpo, que já estavam na boca. Gotinhas vermelhas com vitamina A pingaram no chão. Olhou para as gotas, fechou os lábios e levantou-se do sofá.
Foi até a cozinha, pegou um guardanapo. Voltou até a gota e começou a limpá-la. Então percebeu que seu dedo já havia cicatrizado. E, ali, agachado naquele pedaço de chão feito de mogno e um pouco desgastado, as gotas pareciam ter expandido, estavam com um volume maior. Redobrando o guardanapo tentou limpar. Viu que aquele pedaço de papel estava completamente encharcado. Pegou a barra da camiseta utilizou-a. O líquido manchou o tecido. O líquido caminhava no tecido de fibra em fibra, linha à linha. E logo toda a roupa estava respingando o liquido.
Agora um pouco assustado, correu à cozinha, pegou uma bacia vermelha, encheu com água, pegou um trapo e voltou à sala. A vermelhidão já se arrastava por uma parte do chão. Agachou-se e seus joelhos se coloriram, assim como os cotovelos. Passou a esfregar o pano úmido de água da bacia no mogno encharcado; o líquido e a água passaram a correr com maior velocidade. As mãos ajudavam a espalhas aquele fluido pelas reentrâncias e fendinhas do chão irregular e falho.
Estava ficando desesperado – e cansado. Desenhos iam se formando sobre a madeira conforme o rodo-mão-pano ia passando. E, logo, toda a sala estava banhada pelo vermelho. Ergueu-se, levou as mãos à cabeça, desesperado – os cabelos também se coloriram. Estava em um desespero ofegante; suava um suor salgado que ao respingar encontrava o caráter neutro do liquido no chão. Sua saliva também começara a escorrer, com pequenas borbulhinhas, e ia formando riachinhos pelo corpo ou pelas tiras de roupa vermelha até o chão.
Já estavam todos os moveis coloridos e todos os tapetes submersos pela camada sanguínea. Sangue, sangue, era um fluido sanguoso, não só sangue, era sanguoso e denso.
Olhou para os lados. Percebeu que havia catarro no nariz e lágrimas nos olhos que escorriam freneticamente. Sentiu também o calor nas coxas: era a urina. Sua respiração não mais eliminava gases, mas sim vapores e umidades compostas. Ambiente se dava por úmido e quente, porem ele sentia frio. “Como acabar com tudo isso? Como limpar e retornar?”.
Com as últimas forças das pernas foi até a cozinha, pela última vez, abriu o armário, pegou um pote grande e voltou correndo à sala. Abriu o pote, o que havia no pote? Meteu a mão lá dentro e apanhou um punhado de sal. Atirou o pó branco no chão, por todas as partes, em todos os móveis, e no próprio corpo. Esfregou o sal com as palmas das mãos no rosto, nos braços, nas orelhas, nos narizes. Rapidamente, os animais invadiram a sala: eram os gatos, velhos, sujos e porcos, que passavam a se banhar e se alimentar.
Sentiu-se perdido, rasgou a roupa, ficou nu; espalhou sal por toda a superfície do corpo. Sentiu-se perdido, e viu que havia morrido já há uma semana.

Terminal


Naquele dia ele acordou como se houvesse chupado um limão na noite anterior. E realmente sua boca encontrava-se ácida por demais, seca por demais. Lembrou-se: é perigoso, perigoso ter os lábio desse jeito.
E lá, jogada no sofá, a moça permanecia dormente, na verdade adormecida, conspirando, talvez, em seus sonhos, contra si mesma. Ou não, talvez ela estivesse somente sonhando com algo, porque é sempre com algo que nós sonhamos. Sua saia vermelha bastante curta, manchada de conhaque escuro, porque era desse que ela gostava, estava estática, delineando os contornos e tornos das pernas. Algumas mechas do cabelo, castanho escuro, deitavam sobre o rosto.
O que ele mais queria era saber com o que ela sonhava! Não ousava nem mesmo especular o que viria a ser. E, então, bruscamente ela se ergueu, respirando fundo e rápido. Ela tinha o olhar desorganizado e os lábios derretidos. Levou a mão esquerda à testa e tossiu duas vezes.
-Diga-me, com o que sonhava.
Ela fitou-o diretamente.
-Não sonhei com você, meu amor, fique tranqüilo – respondeu em tom de sarcasmo.
-Diga!
Ela estremeceu, pôs-se de pé. Ela fez o mesmo. Após piscar duas vezes rapidamente, ela disse:
- Sonhei um sonho.
- O que havia nesse sonho?
- ...Sonhei que eu havia morrido. Sonhei que eu mesma não estava no meu sonho.
O homem, assustado, deu um passo para traz. Permaneceu calado. Então, desenhou na face uma expressão de raiva.
- Como você pode?
- Não tive culpa! Não sou eu quem escolhe os meus sonhos!
- Então quem o faz?
Silêncio.
- Eu não tive culpa de sonhar um sonho sem eu mesma! Você não pode me culpar por isso!
- Não lhe culparei, apenas lhe punirei.
- Você não pode fazer isso! Eu já lhe disse! Não escolhi sonhar o que eu sonhei...
- Infelizmente as convenções atuais impedem que você continue viva, e, se eu não lhe matar nesse instante, alguém acabará por fazer o mesmo nos próximos minutos.
- Mas você não me ama?
- Hunf, como eu poderia continuar amando alguém que sonha o que você acabou de sonhar?
A moça chorou altamente, o homem dirigiu-se à cama e lá pegou uma fronha suja. No sofá, a moça soluçava vibrantemente. Com medo.
-Vamos, sente-se direito.
- Não acredito que você terá coragem de fazer isso comigo. Eu entendo que o que fiz é absurdo, mas... eu não quero morrer por isso. Livre-me disso!
- Vou livrar-lhe disso, matando-lhe.
Ela meditou por três minutos. Não era uma meditação fúnebre, e muito menos era o número três o seu número da sorte, mas, dessa vez, ela acertara em cheio:
- Como você pode ter certeza de a obrigação que agora você sente em me matar para me punir não é algo apenas fruto da sua mente?
- Como? – ele não havia entendido.
- Digo, você está certo de suas convicções? Você tem certeza que o que você está preste a fazer é exatamente o que espera-se que você faça nessas situações? Você tem certeza de que isso não é uma criação sua?
- Criação? E eu lá sou algum tipo de artista? – debochou.
- Você terá coragem de me matar mesmo sabendo que você pode estar apenas construindo tudo isso na sua cabecinha de jiló?
Silêncio.
- Nesse exato instante – ela continuou – eu posso estar muito bem sentada aqui do seu lado, nesse sofá, como estou agora, mas, ao invés de discutirmos a minha punição, podemos estar conversando sobre as sete maravilhas do mundo. Sete maravilhas deve ser escrito com iniciais maiúsculas?
- Não, eu acho que não.
- Ah, sim, obrigado. Bom, nós podemos muito bem estar agora tendo uma conversa muito cara aos casais da nossa idade, mas na verdade você pode estar ouvindo e criando e construindo coisas diferentes do que a realidade lhe diz. Você pode estar tendo percepções diferentes.
- Hunf, - debochou mais uma vez – e como você explica o fato de eu estar ouvindo isso de você, de você estar me explicando isso agora, se, na verdade, sou eu quem está criando tudo?
Silencio, porém disfarçado.
- Você pode estar começando a tomar consciência. Você pode estar começando a colocar os olhinhos na fresta da porta de vidro transparente.
- Hunf.
- Então, me diga, terá você coragem de executar-me, sendo que, depois de o fazer meu corpo será encontrado e os detetives não descobriram causa alguma para meu assassinato?
- Como não há causa alguma? Esqueceu-se do que você acabou de sonhar?
- Sim, mas isso é apenas uma criação sua.
- Não posso acreditar nisso apenas porque você alega que eu estou desenhando toda essa situação, isso tudo é muito real para mim. Você é quem está me enganando!
Ela fitou-o firmemente.
- E ainda mais - ele prosseguiu – se você é apenas uma criação minha eu posso muito bem lhe matar, assim como um pintor pode queimar um quadro que não lhe agrada!
- Tsc, tsc. Você não me entendeu. Eu não sou uma criação sua. Você está criando apenas essa situação, esses seus argumentos, as palavras que saem da minha boca, a fronha com a qual você pretende me matar... Nada disso está acontecendo de verdade! Abra los ojos, mon amour! Olhe para o céu que está sobre sua cabeça!
- E por que você acha que eu estou fazendo tudo isso?
- Não sei muito bem, mas posso imaginar que você sente inevitável vontade de me matar.
- Como eu poderia fazer isso? Eu te amo!
Ela percebera como é tênue essa linha que agora pairava na sua frente.
- Sim, você me ama.
- É, eu te amo! – disse ele jogando para longe a fronha suja.
O homem a abraçou firmemente e a beijou longamente. Ela permaneceu quieta, recebendo o carinho do amante. Quieta e séria.
Eles se entreolharam, ele sorriu e disse, se levantando do sofá.
- Vou fazer café!
- Enquanto isso eu vou dar uma volta nas sete maravilhas do mundo, tudo bem?
- Claro, meu amor, mas não demore muito.
A moça dirigiu-se até a porta. Saiu da casa.
Começou a andar pela calçada do seu quarteirão, recebendo na face a brisa gélida da manhã. Ela ainda estava com medo de ser pega. E foi no exato momento em que ela se lembrou do seu temor que ouviu as vozes e os passos de uma multidão correndo atrás de si:
“Peguem-na! Ela é a moça que sonhou que estava morta! Vamos todos puni-la!”