quinta-feira, 10 de maio de 2007

Análise - Perfume: A História de um Assassino


Não acho fácil falar de Perfume. Tom Tykwer é autor de outro filme que gosto muito, o famoso Corra, Lola, Corra. E não sei muito bem como começar essa análise. Vou atirar algo para o alto.
A primeira coisa que me chamou a atenção, e que mais me chamou atenção, foi a iluminação do filme. Que coisa interessante o que ele faz com ela! Parece-me que ele usa além de posicionamentos muito fortes – digo fortes porque deixam em destaque a sua artificialidade e intensidade – tonalidades diferentes das quais haveria em tais ambientes, como por exemplo, a cor amarela direcionada diretamente para o rosto de uma moça em um beco escuro. Achei muito bonito e esteticamente rico esse trabalho.
É um filme com uma fotografia fantástica, diria até que exageradamente bonita. Além disso, os lances de câmera, os enquadramentos e ângulos, estão muito bem trabalhados.
Quando fiquei sabendo que Perfume seria filmado, imediatamente pensei que seria um trabalho difícil, mas que, se bem feito, poderia render um filme nada menos que maravilhoso. O impasse de filmar essa história seria justamente romper com os limites da linguagem cinematográfica. Oras, Perfume fala de essências olfativas, como transmitir essas sensações ao espectador?
E é exatamente aí que eu acho que o filme peca. Ao assistir, vi todo um cuidado para tentar transmitir o que a personagem principal sentia, os odores e cheiros mais diversos, mas que, no entanto, acho que não foi o suficiente. Basicamente, o que se faz é uma associação de imagens, mostrando o objeto cujo cheiro o personagem principal sente. Funciona mais ou menos assim: o personagem sente algo, e logo, há um bloco de imagens no qual o diretor expõe “o odor”. Acho pouco, muito pouco. Falta uma maior diferenciação entre cada cheiro em si, e com elementos muito específicos (algo que faz muita falta) principalmente nas seqüências em que são apresentadas as vítimas do assassino, onde não se percebe visível diferença entre elas(para mim, todas elas tem apenas cheiro de mulher). Falta uma trilha sonora intensa e muito característica que aluda a cada odor em si, as sensações que ele traz. (Além do mais, a trilha do filme é toda muito pobre). Falta um trabalho especifico com o ritmo de câmeras, tentando acompanhar as nuances que tal cheiro tem, ou reações que ele provoca. Falta, falta, falta. Na verdade, isso tudo são valores prescritivos, ou seja, como eu acho que o filme deveria ser construído.
Percebi que o filme entrava em um “patamar superior” com a cena da caverna. O assassino, saindo de Paris, encontra, em campos ermos, uma caverna e percebe que lá não havia nenhum outro cheiro, a não ser o de “rochas mortas”. E é dito que lá ele poderia descansar, pois sua mente poderia se situar em nada além dele mesmo. E, logo, a próxima cena mostrada, é ele, ainda na caverna, com cabelos e barba longos percebendo que havia perdido o seu cheiro, perdido sua própria essência. Bastante epifânico! Mais tarde, ele se dá conta de que ele nunca teve cheiro algum, e isso causa um abalo na sua pessoa, já que, para ele, o ponto mais importante de uma pessoa é o próprio cheiro, pois é com o qual que as outras se lembrarão dela, ele diz que o cheiro é a alma da pessoa. Acho que aqui ele aprofunda o seu sentimento de ser diferente dos demais.
Acho que Perfume se configura muito político. Digo isso me baseando nos últimos quarenta minutos. A cena da “morte” de Jean-Baptiste é um ótimo representante de toda essa politicidade da obra. Podemos, aí, fazer inúmeras interpretações. Poderíamos dizer algo sobre uma essência – e o que viria a ser essa essência? – que tem o poder de dominar pessoas. Poderíamos dizer algo sobre como as pessoas se rendem com imensa facilidade, tendo seus ideais e vontades subjugados, talvez por uma sensação. Poderíamos dizer algo sobre a importância das aparências frente à todos, e também a inescapabilidade à essas aparências, a sina do ser humano.
Também achei interessante o relativismo que o enredo nos traz. Teço aqui perguntas que facilmente podem ser respondidas: O que motivava o assassino? Era amor? E o que trazia tanto repúdio e asco ao povo à imagem do assassino? Tudo isso é quebrado após a seqüência da condenação, da “morte”, a qual representa o ponto de inflexão do filme: o povo se torna súdito de um assassino, que antes condenou à morte, e o assassino se cansa, por perceber que nada mais valia à pena, já que a única coisa que ele não poderia ter e que nunca teve, foi o amor.
A questão política é fechada de maneira belíssima, com a cena-quase-final, que ocorre no local de nascimento do personagem, em que ele despeja todo o perfume em sua cabeça e é devorado pelos habitantes do local, após ser glorificado e adorado pelos mesmos. Ou seja, como não lhe interessava mais a poção do poder que ele havia criado, ele morre com ela, com a corrupção que ela traz.

1 comentários:

NªT disse...

Muito boa a análise.
Penso no mesmo sentido, porém vi um filme um pouco mais religioso.
:D