sexta-feira, 8 de junho de 2007

Os Velhos


(Todas as afirmações que eu faço aqui tomam como parâmetro de análise a sociedade na qual eu vivo. Encare esse “eu” da maneira que preferir. Não estou levando em consideração o panorama social do leste europeu e muito menos o da China setentrional, se te interessa saber)


Quando cheguei em casa na noite de hoje, a vizinha do apartamento da frente estava na minha casa, minha irmã a havia recebido. A velha me contou que a chave da sua casa havia ficado com a filha, que acabara de pegar um ônibus para se dirigir ao setor onde morava. Sem delongas, velha queria dormir aqui em casa. Ela aparentava um estresse desnecessário e uma preocupação descabida, do estilo de levar as mãos à boca e pronunciar, com voz penosa, “ah meu deus...”, como se o fato de sua chave ter ficado na bolsa da irmã fosse semelhante ao esfaqueamento de Marion Crane no chuveiro por Norman Bates. Sabe, essa é a primeira coisa que eu quero ressaltar aqui: não é a primeira vez que vejo velhas alimentando preocupações com bravas doses de exagero – a primeira vez que presenciei isso foi quando estava pegando carona com uma amiga da minha mãe, para ir de Brasília para Goiânia num fim de semana. No carro estava também a mãe dessa amiga, e, quando estávamos saindo do setor Sudoeste, no qual ela morava, começou a chover. O fato é que estava chovendo e ventando, o não-fato é que a velha ficou horrorizada e, como sempre elas fazem, levou a mão à boca e, abaixando as sobrancelhas, como sempre elas fazem, pronunciou “ah, meu deus...” seguido de um “e agora?... que horror...”.
Minhas hipóteses:
1) As velhas da atualidade com suas vidas vazias e repletas de suas rotinas que não preenchem nada precisam encontrar Conflitos (
http://persuasiofalsa.blogspot.com/2007/05/o-conflito.html) para se alimentarem, problemas para saírem da linha comum na qual vivem.
2) As velhas da atualidade perdem seu senso de realidade (o que é fato que ocorre, devido a infinitos motivos, como, por exemplo, as rápidas mudanças da contemporaneidade e a lentidão dos idosos) e por isso deixam de ter o tato que as pessoas geralmente têm, o tato de sentir as situações como elas devem ser sentidas, ou seja, de não saber distinguir um momento de preocupação com a festa de aniversário da bisneta.
A outra coisa que eu queria discutir aqui é acerca de um intradiscurso (conversa que tive comigo mesmo) naquela situação. Quando a velha disse que queria dormir lá em casa, eu me vi relutante. Mentira, eufemismo: eu não queria que ela dormisse lá. Ah, sabe?, eu não queria. E, logo, me veio o clássico argumento na cabeça:
“Devemos respeitar os mais velhos, Felipe Ricardo!”
Então me questionei sobre a origem dessa afirmação. Creio que ela deva ter surgido, muito provavelmente no oriente, ou em algum local em que a idade idosa era sinônimo de basicamente duas coisas:
1) experiência de vida
2) acumulo de um largo arcabouço intelectual, devido ao contato durando muitos anos de vida com fontes de intelectualidade, cultura e afins.
Claro que para a sua época esse argumento é extremamente válido, a priori (a priori!). Porém, será ele hoje em dia? Eu acho que não. Não serei mole em dizer que praticamente não conheço nenhum velho próximo de mim que satisfaça tais requisitos que citei ali, sem duvida alguma. Eu nunca apreciei muito essa idéia que ditava que devemos respeitar os mais velhos, mas isso não significa que eu os desrespeitava. Acho ridículo esse tipo de desigualdade infundada que se cria nas mentalidades, separando os mais velhos dos outros, como se anos a mais de vida fosse sinônimo dos dois pontos que acima citei, o que de fato, na contemporaneidade não é. Hipocrisia ridícula oriunda de um nível de análise pífio da mentalidade das pessoas do nosso tempo.
Se vamos respeitar os mais velhos (o que eu acho que deve ser feito) não vamos respeitar por causa dos dois pontos que eu disse, pois eles não correspondem mais a realidade, são falácias. Que os respeitemos como damos vantagens aos deficientes, por os velhos (e eu não tenho pudores de dizer isso) carecem sim da esperteza que jovens e adultos têm, é fácil observar isso. (Não generalizar o que lê, leitor!). Ou então, que os respeitemos como devemos respeitar todas as pessoas de todas as idades, por educação e para propiciar uma boa convivência social.
Enfim, eu reconheci que não havia mal algum em ela dormir lá em casa, e inclusive reconheci que devemos, por mais moral cristã que seja essa afirmação, ajudar os outros quando necessário e importante, como era o caso. No entanto, não foi necessário: a filha dela interfonou dizendo que estava subindo para entregar-lhe a chave.

1 comentários:

Rodolfo Godoi disse...

Eu morrerei antes de ter que causar todas essas discussão.