quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

A Psicologia da Personalidade em Persona, um filme de Ingmar Bergman



"I write scripts to serve as skeletons awaiting the flesh and sinew of images."
Ingmar Bergman



Densamente simbolista e psicológico, é como podemos descrever o trigésimo terceiro filme do diretor sueco Ingmar Bergman. Com uma cinematografia rica e maestria experimental, o roteiro do próprio diretor ganha a vida em um complexo enredo muito introspectivo e peculiar.
Ernst Ingmar Bergman nasceu em Uppsala, na Suécia, em 1918. Cresceu rodeado por um ambiente religioso e por uma educação rígida sintetizada pelo estrito código ético de seu pai, que era um pastor Luterano. Esses elementos, mais tarde viriam a influenciar fortemente em sua produção artística, fazendo desta um bom reflexo de sua personalidade, ou da construção da mesma; como por exemplo ocorre em Fanny e Alexander, de 1982, considerado o filme-testamento do diretor, que conta com traços da história de sua infância.
Primeiramente, Bergman estudou Literatura e Arte, em Estocolmo. Não completando esse curso, voltou sua atenção ao Teatro – campo em que trabalhou escrevendo roteiros e dirigindo atores -, e, só posteriormente, ao Cinema.
Os filmes de Bergman são marcados pela complexidade. Complexidade que se mostra de várias formas: tanto no desenvolvimento do enredo, abordando temas profundos e de forte apelo emocional, quanto à própria construção cinematográfica, que por não apresentar uma linha de raciocínio necessariamente lógica ou temporal, consegue confundir facilmente os olhos de expectadores mais destreinados.
Mesmo não tendo conseguido estabelecer em seu país uma tradição cinematográfica forte, Ingmar Bergman é um artista de peso mundial, com contribuições fantásticas para o Cinema Clássico.
É importante falarmos sobre algumas outras obras desse diretor para nos situarmos em sua produção cinematográfica, compreendendo seu estilo e conhecendo os temas que ele usualmente trata, e posteriormente podermos analisar Persona com mais propriedade.
O Sétimo Selo foi realizado em 1957 (e indicado ao Golden Palm, no mesmo ano) e é um marco na história do cinema pois trata de uma tema extremamente metafísico e humano, ao mesmo tempo: um diálogo com a morte. Com uma estética neo-expressionista – principalmente pela sua composição imagética escurecida – o se passa nos tempos medievais (elemento também presente em outros filmes do diretor, como por exemplo Noites de Circo) e tem como enredo a rapsódia de um homem em conflito, que encontra a morte, que o convida para um jogo de xadrez. Todo o filme é cunhado por um incrível peso existencialista e por uma interessantíssima densidade psicológica. Juntamente com Persona, Fanny e Alexander e Gritos e Sussurros, O Sétimo Selo é considerado uma das melhores produções de Bergman.
Outro filme que conta com uma boa dose de psicologismo é O Rosto, de 1958. Dessa vez, Bergman aborda o sobrenatural, tecendo uma teia com a arte, a cresça e o indivíduo, levantando perguntas ao expectador, como por exemplo um questionamento acerca dos limites da razão humana, ou da cresça humana nessa razão. Tudo isso é tratado com um enredo que conta a história de um mágico que chega com sua trupe à mansão de um homem, e lá, passa a iludi-lo. A trama do filme também trabalha com a idéia da nossa verdadeira face, da nossa verdade interior, aquela que escondemos sob máscaras, criando situações riquíssimas e de alto valor para a análise psicológica, com os personagens.
Um filme muito recente de Bergman que foi aclamado pela crítica é Gritos e Sussurros, de 1972, ano em que foi indicado à três Oscar, incluindo melhor diretor, melhor filme melhor roteiro. Dessa vez já com a película colorida, o diretor conta a história de irmãs de uma família nobre que têm suas vidas despedaçadas pelo sofrimento, trazido pela descomunicação entre elas, pela doença terminal de uma delas, e pelo opressivo ambiente formal em que vivem. Com toda cenografia criada em tons de vermelho-sangue, esse filme, consegue transmitir a dor daquelas personagens, a dor de desejos não satisfeitos, de pulsões não eliminadas, de vontades que não podem ser realizadas, mas sim oprimidas. Dor e opressão, ou melhor, gritos e sussurros.


Persona situa-se em uma confluência de significados, entre os quais se encontram a metalinguagem, a arte como representação, a noção de realidade, a individualidade. Contudo, acima de todos esses temas, a discussão acerca da psique humana domina o filme do começo ao fim.
Bibi Andersson e Liv Ullmann, as atrizes preferidas de Ingmar Bergman, interpretam, respectivamente, Alma e Elizabeth Vogler. Elizabeth é uma atriz que surta durante a representação de Electra, e, a partir de então, se coloca em um estado de mudez absoluta. Ela é levada à uma clínica psiquiátrica para permanecer internada, onde conhece Alma, a enfermeira que a assiste. Percebendo que a internação não surte efeitos na condição de Vogler, sua médica sugere que ela e Alma se mudem para uma casa de praia. Então, é dado início a belíssimas seqüências dos monólogos de Alma, que, devido à mudez de Elizabeth, passa todo o tempo lhe contando suas histórias, apenas observando a expressão quase que imutável da outra.
A película mostra então a quebra desses papéis. Vogler larga sua máscara de paciente ouvinte e explode denunciando todos os seus próprios pecados, contando inclusive sobre uma orgia que participou e de um conseqüente aborto.
O embate entre as duas continua, Alma percebe que Elizabeth estava se divertindo ao ouvi-la se entregar com suas histórias todo aquele tempo em que permanecera em mudez. Alma se sente ofendida e usada, tratada como um objeto de experimento para a diversão de uma atriz muda. Então, Alma começa a denunciar todas as falhas e erros da personalidade e das ações de Vogler, como se a conhecesse há muito, mesmo a outra estando sempre muda.
O primeiro detalhe a ser tratado é quanto aos nomes presentes no filme. O primeiro deles é o próprio nome do filme, “persona”, que é o vocábulo que os gregos davam à máscara utilizada nos teatros antigos.
Bergman, ao escrever o roteiro, conhecia o significado da palavra latina Alma, o que mostra todo o detalhismo que o diretor trata sua obra, e deu esse nome à personagem de Bibi Anderson. Desse modo, qual o significado de darmos o nome Alma a uma personagem? Uma possível análise, responderia dizendo que essa personagem é a essência, o que pode ser visto pelos monólogos que ela faz durante todo o filme, tornando-a o motor principal das discussões que ocorrem na tela. Isso nos leva a uma idéia de auto reflexão, pois Alma sintetiza através de suas palavras seus sentimentos e vivências, um exercício fundamental e que leva o indivíduo a um conhecimento próprio, a trabalhar com a própria condição humana, com suas próprias características, com suas vontades, verdades, mentiras, dores e frustrações. Com isso, é curioso perceber a existência de uma troca de papéis, pois, a enfermeira se torna paciente – que é ouvida e avaliada por Vogler -, e a paciente se torna a médica analista.
É fundamental uma discussão sobre a personagem Vogler. A sua condição de atriz traz a história uma interessante reflexão acerca da arte. Ela cansou de atuar, ou seja, cansou de ser um não ser, e, por esse motivo, ela se impõe a mudez completa – algo que assassinaria, a priori, todo o lado de atriz que existisse em sua personalidade.
Mas não é isso que ocorre. O embate entre Alma e Elizabeth nos faz perceber que enquanto essa é atriz por profissão, aquela o é por vocação, por sua vida é atuar. Assim como gosta de pensar Bergman, a vida é uma atuação, é arte, ou seja, os limites da realidade com a ilusão, da verdade com a mentira, da criatura e do criador, são essencialmente tênues. Para comprovar a presença disso no enredo do filme, podemos muito bem tomar como exemplo as máscaras que ambas a personagens vestem, para esconder sua verdadeira face, o que todos fazemos, criando não só para os que nos vêem, mas também para nós mesmos, mentiras que se metamorfaseam em verdades indiscutíveis.
Podemos analisar Persona sob a luz da Teoria Jungiana. Como já dito, essa obra-prima de Bergman é um mergulho na psique humana, um levantamento de questões acerca da mente.
Lembremo-nos do significado da palavra “persona” para os gregos, ou seja, máscara. Dessa forma, persona é a máscara com a qual nos apresentamos ao mundo, ou seja, um complexo da personalidade.
A presença desse conceito no filme é bastante relevante. Elizabeth, na condição de atriz, se vê interpretando papéis e vivendo outras pessoas, outras personalidades. Isso causa um desgaste de sua persona, o que atinge seu ego e sua psique. Logo, quando ela se vê acuada e perdida, ela se emudece, se fecha em um mundo silencioso e introvertido.
O isolamento com Alma, que a acolhe e cuida dela, de nada adianta para a resolução desse problema. Vogler passa a nutrir-se da persona da enfermeira, como um fungo parasita. O ápice de toda essa dinâmica ocorre quando Elizabeth “engloba” Alma (em uma belíssima cena), momento em que percebemos que, apesar de toda a sua mudez, ela estivera sempre observando sua companheira muito atentamente, mais uma vez, como uma atriz analisando seu objeto de trabalho. Uma análise mais profunda indicaria que, a partir desse momento, existiria apenas uma pessoa, usando a mesma persona, fundidas.
Existem muitas interpretações da seqüência de abertura do filme, uma colagem modernista de imagens e sons, inclusive a psicanalítica, pois cada um pode atribuir um significado distinto ao que assiste, através de ferramentas, como, por exemplo, a livre associação de idéias.
Uma interessante interpretação é a que relaciona com o ciclo da vida. Nesse caso, o nascimento seria representado pelo inicio do funcionamento do projetor de cinema (o que coincide com toda a metalinguagem presente em outros elementos do filme). A extasiante imagem do garoto tocando o rosto de uma pessoa, na seqüência seguinte, representa muito bem uma metáfora para o encontro de uma identidade, pois no filme Bergman muitas vezes usa as mãos e o rosto com símbolos de identidade humana.
Algo que também deve ser ressaltado que geralmente passa despercebido é a escolha da médica de Vogler de mandá-la para uma casa de praia, privando a da internação em um sanatório. Essa decisão, fazendo um paralelo com a realidade atual, foi influenciada por um modo de pensar que é o mesmo que norteia a Reforma Psiquiátrica, movimento o qual tem ganho muita força e representatividade tanto no Brasil quanto no mundo.
Ao ver o estado psicoemocional de Elizabeth, a média deve ter ponderado acerca dos benefícios que a paciente teria se fosse deslocada para o convívio normal em uma casa de praia, valorizando e reintegração do individuo – no caso o paciente que surtou – à sociedade; exatamente como é feito com Vogler.



A análise cinematográfica se mostra extremamente rica quando consegue realizar a leitura completa de um filme, ou seja, quanto consegue ler o texto que se passa por debaixo de cada imagem exibida na tela branca.
São muitos os filmes que possuem enredos dotados de temos ligados à psicologia. Poderiamos citar um clássico do Cinema Americano, Que terá acontecido com Baby Jane?, de Robert Aldrich, que aborda as motivações da rivalidade, a agressividade, os limites do amor em relações familiares, dentre outros temas.
Dessa forma, é extremamente importante salientar que a análise de Persona fundamenta-se, como já dito, na Psicologia, e com mais propriedade ainda, na Psicologia da Personalidade, por tratar não só de temas pertencentes a esse assunto, mas por tê-los como fundamentais para a dinâmica fílmica, tanto do enredo quanto da própria estética cinematográfica. Portanto, faz-se mister afirmar que para que o espectador possa realizar uma boa leitura do filme, para que ele possa realmente apreciar os detalhes e as sutilezas contidas em filmes do gênero de Persona, para que ele valorize cada nuance da obra, é necessário uma certa dose de análise psicológica.

Cavernas sobre os olhos noturnos

Pensemos em dois tipos de artistas. The ones who pensam em uma história - porque toda arte é uma história ([anti]ode à Cazarim, com seus postulados imperativos de arte) -, prouduzem sua obra, e, por ela, conseguem transmitir exatamente o que pretendiam, causando a igualdade entre quem está do lado de cá e do lado de lá das páginas. E, também, the ones who pensam em uma história e também produzem sua obra, mas que não conseguem transpor à ela aquilo que havia criado. Nesse caso, a obra não está morta, muito pelo contrário. Nesse caso, duas obras são criadas: aquela que é trasmitida e que afeta o público - escancarada -, e a outra, que não conseguiu se desprender da criação do artista, continuando colada, permanece intacta, única, secreta, como uma gota de água com sais que, isolada a mil metros de profundidade na terra em alguma caverna onde a luz nunca chegará, cai de uma estalagmite à estalagtite logo abaixo.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Antes do Sono Chegar

"[...]aquelas que continuam ao longo dos anos e das mutações a dar forma aos desejos e aquelas em que os deejos conseguem cancelar a cidade ou são por essa concelados."
Le Cittá Invisibili, de Italo Calvino.

Atado, preso, espremido, comprimido, recluso, amarrado, atarraxado, aprisionado. Tolhido.
Preocupações, preocupações, preocupações.
Coisa indeFinidas, indefnIdas, indefiNidas.
Quero que passe.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Queria morar em uma locadora! Not!

Declaro aqui meu ódio irrevogável a todas as atendentes de locadoras do planeta terra! Desde que eu ganhei meu primeiro videocassete, eu sempre as odiei. É aquela coisa de sempre, você vai lá, elas estão com uma cara de bosta sentadas atrás do balcão, você pega Um Amor Pra Recordar na prateleira, se vira para ela, "Esse aqui é bom?", "Nossa, muito bom! O melhor filme que eu já vi! Você vai adorar! Pode locar com certeza!". Ou então, você vai lá, elas estão com uma cara de bosta sentadas atrás do balcão, você pega "Os Sonhadores" na prateleira, se vira para ela, "esse aqui é bom?", "Ahn, eu não gostei não. Meio pesado, sabe? Parece filme de doido... Eu não recomendo não..."
É por isso que eu as odeio. Pense só, uma mulherzinha chata, que fica de trás do balcão sentada com cara de bosta, e ainda por cima não tem senso algum de cinema! (Não que todo mundo tenha que ter senso, por exemplo, se ela trabalhasse num açougue eu não reclamaria dela ser uma topeira cinematográfica).
Ocorre que, ontem à tarde, fui locar um filme numa dessas locadoras que tem como atendentes esse perfil de profissionais (rsrs...). Não, eu não pergunto nunca a opinião delas sobre filmes, muito obrigado, eu tenho a minha própria, e não estou interessado na de uma pessoa que tem como diretor favorito Steven Spilberg (porque esse é o único que ela conhece!). Estou eu lá, entre as preteleiras, e ouço ao longe, no balcão:
"Hum, Josefa¹, você sabe se esse daqui é bom?", diz uma mulher imensa, com um loiro desbotado, e com a face que denunciava um eu-não-durmo-há-onze-meses.
"Ah, sim, muito bom."
"Fala sobre o quê?"
"Ah, é sobre uma irmã que tem um caso com o marido da outra sem ela saber e depois de tudo o marido morre e a irmã acha que foi a irmã que matou o marido que era amante da irmã, mas no final a irmã descobre que não foi não."²
A mulher imensa, com um loiro desbotado, e com a face que denunciava um eu-não-durmo-há-onze-meses, fez uma expressão de "que interessante!", e disse:
"Noçsha³, que interessante! Vou levar esse mesmo então!"
É por isso que eu não me dou bem com esse perfil de profissionais (rsrs...).
Ah! Terminei de ler Baricco!
Me dei a liberdade vermelha (o/) de abusar das notinhas nesse post!
¹Não, o nome dela não é Josefa não. É Carol. No entanto, para aprimorar o metodo de fazer o leitor odiar também a personagem, eu lhe dei um outro nome, digamos assim, menos comum.
²Não, eu não sou um analfabeto-sintatico. Eu escrevi essa bagunça toda exatamente como a balconista disse. eu sei que esse comentário de rodapé se faz desnecessário - pois pode-se perceber isso através de uma simplérrima interpretação de texto - mas eu queria que eu tivesse muitas notas pra escrever em itálico no fim do post e inventei mais essa!
³"Noçsha", explicação: ela tinha lingua presa.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Ano e Tempo

Quisera eu ter escrito uma breve retrospectiva, ou uma síntese breve, do que foi o meu ano passsado, cuja conclusão constaria o meu atual sentimento para o ano novo. Como incrivelmente muitas coisas, não o fiz.
Muitos tem dito que o ano passado foi um ano morto, expressão minha, que seja, um ano desperdiçado, expressão deles, que seja.
Eu não concordo com essa assertiva, para não ser cliché e, mesmo assim - inevitável, como se fosse - aderir a nova moda de parafrasear/citar outros blogs.
Sim, eu poderia ter visto mais filmes e ido mais ao cinema - algo que realmente deixar de fazer me põe em um atraso espessamente agoniante e cadavérico -, poderia ter lido mais livros, poderia ter revisto pessoas, poderia ter me jogado em direção às pessoas as quais eu senti falta. Mas não, tudo isso não me faz pensar que foi um disperdício.
De qualquer forma, costumo ver o tempo passando com relevante beleza para poder julgar de forma depreciativa qualquer passagem que nele tome espaço. É como se todos os atos, todas as falhas, todas as histórias e narrativas, todas as vidas, todas as pessoas, todas as cenas (e que cenas!) que mancharam e deram cor ao ano passado, construíssem uma obra plástica por si só, agora finalizada - intacta em uma arredoma de vidro, em um cubo de vidro exposta em algum museu. Não sairá mais de lá, nunca mais.
Eu me preocupo demais com os clichés e com a escrita piegas para dizer que o ano que passou vai influenciar nos próximos anos maravilhosos e vindouros da minha vida. Nem pensar. Isso é óbvio.
No entanto, da mesma forma que agora eu me dedico muito mais aos livros que não li, aos filmes que não assisti e às pessoas que não vi, para tentar dar outros contornos no quadro desse novo ano, eu me ponho em xeque frente às pessoas que me colocaram em um tabuleiro de xadrez no ano passado, me torturo com as dúvidas que ascendem de novas convivências, de novos interesses interpretados com antigas paixões, me derreto com um novo que não é uma perfeita progressão do que o ano que morreu deixou para o futuro. Dialética extrema.
Por mais que o tempo - que costumo dizer que é a coisa que mais me faz ver com beleza outras coisas - siga sempre em linha reta, o rastro que ele deixa, para frente e para traz, não tem nada da perfeição reta e seca. Não mesmo. Muitos vetores, muitas curvas, muitas quedas, muitas linhas.
Diferentemente de muitos outros que li, tenho medo do próximo ano.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Em processo decisório

O tempo passa, é óbvio. Mas o pior de tudo, não é o medo de quando o que você chamou de futuro se veste de presente, mas sim, quando você se dá conta de que a roupinha que esse vai usar depende das roupas que você hoje usa. É tudo um imenso processo de construção, que, por vez, depende de um processo decisório incrível. Incrivelmente impetrado pelo tempo.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Ódios extremos, adorações extremadas

Nas últimas semanas, uma frente quente de dureza tem se abatido sobre mim. E só vim a reparar isso agora. Uma extremação nada delicada em definir minhas preferências ao tomar contato com coisas novas. Começou com Woody Allen, que não é nada novo para mim, mas sim é novo os odes que alguns amigos meus têm feito a ele. Sim, eu acho Woody muito bom, genial em muitas fases, mas não em todas, não mesmo. Não gosto do tom dele nem um pouco, na maioria de suas comédias, tanto que meus preferidos são, de longe, Match Point e Melinda e Melinda; algo que posso explicar melhor depois. Enfim, depois muitos diálogos semi-raivosos, decidi me dar a liberdade de ter birra do Woody, uma extremação que não tenho quando lido com diretores.
Até aí tudo bem. Contudo, ontem me dei conta dde que eu ando fazendo muito isso. Muito mesmo. E o que é mais desastroso: fazendo isso com pessoas. "Conheci" uma pessoa nova ontem, e, dois minutos depois, decidi que não gostaria daquela pessoa, que acharia ela uma pessoa patética e asquerosa. Um exagero, o ser tem sim mil defeitos que me desagradam imensamente e que me irritam, mas eu podeira gostar ddela pelo menos um pouquinho, o que é impedido pelo fenomeno da "birra decidida". Isso é um problema, acho.
Pera aí. Essa postura minha não é uma coisa que começou a poucas semanas! Eu sempre fui assim! Que coisa!

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Metalinguagem

Começou. As pupilas caminhavam de uma extremidade à outra, como se ele lesse, no momento em que se deu por acordado. Envolto em três cobertores, e mesmo assim ainda com os pés para fora, ele sentia frio. Estava frio, chovia lá fora. Logo no dia em que Rorrim havia programado dar uma volta pela manhã e aproveitar o sol matinal. Ao abrir os olhos naquele instante, ele percebeu, pela luminosidade cinzenta que o seu quarto-sala vestira, que ele deveria mudar de planos.
Pôs-se de pé. Lavou o rosto na água gelada da torneira gelada. Vestiu o roupão de linho. Passou o café, encheu uma xícara grade. De certa forma ele achava que esses três elementos combinavam: o frio, o roupão de linho e o café. Se postos todos os três em uma única caixa iluminada cinzentamente, claro.
Por mais que apreciasse esse modo de vida preguiçoso, ele estava cansado. Queria sair um pouco de casa, sentia que não agüentaria nem mais um dia com a caneta na mão escrevendo corridamente durante horas. Rorrim estava escrevendo um conto interminável. Interminável não em extensão, mas em prazo de escrita e consumo de seu tempo, e também em outros elementos. Escrevia muito, e apagava e rabiscava mais ainda o que havia escrito. Aquela tarefa se tornara fadigosa. E agora, justamente no dia em que ele resolvera reservar para tomar um pouco de sol, a situação conspirara contra ele, forçando-o a debruçar-se mais uma vez nos escritos amontoados pelo chão de mogno da sala. Não havia saída. É claro que ele poderia fazer outra coisa ao invés de voltar a escrever naquele dia, mas, justamente no momento em que ele procurou algo que pudesse substituir tal atividade, sentiu um enorme remorso em abandonar os papéis e decidiu dedicar-se, por mais exausto que estivesse, a eles.
Deitou-se no chão, que também estava gelado, e apanhou as folhas: era assim que ele gostava de escrever. Decidiu não reler tudo o que havia escrito até então, ao todo três paginas. Recapitulou apenas as últimas linhas e pôs-se a escrever.
Não conseguiu escrever nada. Olhava para o teto, para as fendas no mogno do assoalho, para a xícara de café, agora já vazia, para o ar invisível, mas não conseguia extrair de nada faísca que pudesse impulsioná-lo a retomar o conto. Sentiu-se sem energia alguma e totalmente indisposto a escrever naquele momento e decidiu recorrer a uma antiga técnica de relaxamento que não praticava há tempos: visitar o porão.
Levantou-se, definitivamente, e foi ao porão. Desceu as escadas de madeira semi-podre, devido à umidade do local, e olhou a sua volta. Adorava porões. Dirigiu-se a um amontoado de caixas de papelão, as quais nunca havia reparado naquele recinto. “Devem ser do antigo dono da casa.” Abriu-as. Em seu interior, havia muitos livros, o que o deixou contente. Um deles era um que ele havia lido há muito, sobre uma personagem chamada Dorian. “Idiota, ele... Como nunca percebeu que aquele quadro de quadro não tinha nada, era simplesmente um espelho! Muito idiota...”, comentou.
Contudo, o que mais lhe chamou a atenção foi um ramalhete de papéis. Parecia ser um conto. Ao ler o título, encabulou-se: “Metalinguagem”, o mesmo do conto que estava escrevendo. Estranhou. Correu de volta a sala, jogou-se no chão, colocando ambos contos lado a lado.
Iniciou a leitura do conto (que apenas se diferenciavam pelas cores das páginas, mais amarelas e, as do outro, mais alvas). A história narrava os fatos de um escritor que, ao cansar-se de escrever um conto, dirige-se ao porão e encontra, acidentalmente, um conto com o mesmo título – Metalinguagem – do que escrevia. Estranho. O enredo parecia referir-se ao próprio conto. Ora, esse era o tema da história! Havia mais: o conto ainda relatava a comparação e o estranhamento do autor ao comparar as histórias, que faziam referências a si mesmas. Estranho!
Agora não sabia mais diferenciar os contos: não sabia mais qual era o seu, qual era o achado no porão. Eram idênticos. Na verdade, possuíam uma diferença básica: a cor. Não julgue Rorrim por daltônico e muito menos idiota por não saber diferenciá-los com base nesse critério. O fato é que ele simplesmente não sabia qual dos dois era o seu justamente, pois, em ambas as narrativas havia um trecho que dizia exatamente assim: “[...] que apenas se diferenciavam pelas cores das páginas, mais amarelas e, as do outro, mais alvas.”, o que impedia com que ele soubesse se o de paginas brancas ou amarelas era o seu por falta de um especificador de referencial!
Rorrim se sentia perdido e com mil flechas apontando em direção a ele. Os arcos eram brandidos por ele mesmo, como se estivesse em frente a um espelho, olhando para si mesmo, em um labirinto labiríntico que dava voltas e terminava no mesmo lugar. E ele leu esse trecho na versão de páginas amarelas e achou interessante a construção “labirinto labiríntico”, um jogo de vocábulos que contribui para a construção de uma figura linguagem criativa, já que a própria idéia de labirinto é evocada na expressão formada. E, essa idéia é ainda mais valorizada se trabalhada em um conto cujo intuito principal é fazer com que o leitor se sinta em um labirinto. Opa, essas últimas assertivas são problemáticas: elas rompem com gênero desse texto, ele deixa de ser um conto passa a ser uma análise. É melhor apagá-las. Ou não? Deixá-las-ei aí, não as apagarei...
“Deixá-las-ei aí”, disse Rorrim, ao ler a versão branca do conto.
“Deixá-las-ei aí”, disse Rorrim, ao se ler na versão amarela do conto.
(Preocupação com a colocação pronominal é algo tão erudito!) Riu ao ler esse trecho em alguma das duas versões, não sabia qual.
Seus joelhos doíam por estarem a muito tempo sendo pressionados contra o chão duro de mogno. Hoje ele sabia que havia sido um erro não haver colocado carpetes macios por todo o chão da sala, se houvesse feito isso, seus joelhos não estariam doendo naquele momento. “Ao ler essa passagem de uma das duas versões, ele reparou que a palavra ‘erro’ havia sido escrita com a grafia errada e resolveu corrigir. Fez isso em ambas as versões. Odiava erros ortográficos”.
Rorrim decidiu fazer algo que não estivesse na narrativa. Queria dar uma de espertinho, de romper com a metalinguagem. Mas o que poderia fazer para conseguir isso? “pensou.” Já sei: vou tentar romper com a metalinguagem! Duvido que isso esteja narrado aí! “... Será?”, levou o dedinho à boca.
Seu próprio ato já fornecia respostas para sua dúvida. Às vezes, escrever é vigiar.
E, lembrando-se da definição tosca do gênero literário “Conto” que uma professorinha de primário ensinou-lhe (uma narrativa curta e blá, blá...), pegou a versão amarela e leu o seguinte trecho: “E, lembrando-se da definição tosca do gênero literário “Conto” que uma professorinha de primário ensinou-lhe (uma narrativa curta e blá, blá...), pegou a versão amarela e leu o seguinte trecho...”
De olhos arregalados, ele atirou o conto amarelo ao chão, assustado.
“Rorrim percebeu, ao ler esse exato trecho nessa versão branca do conto, que todos os fatos narrados aqui refletiam simplesmente os fatos que estavam se passando em seu dia! Desde o momento em que acordara! Ele era o personagem daqueles enredos que lia e que escrevia.”
Enraivou-se e rasgou todas as folhas que estavam a sua frente. Não havia mais contos agora. No entanto, por que essa metalinguagem alucinante continuava e continuou?
Na verdade, ainda existia uma versão do conto recontando a um leitor escritor, ou a um escritor leitor, os fatos renarrados da narrativa. Não é? É. E é por isso que o conto que Rorrim escreve é interminável.

sábado, 29 de dezembro de 2007

Mergulhando

-Nossa, mas você vai comprar um peixinho de estimação? Mas eles morrem tão facilmente!
-Eu também.
Silêncio gelado. Grilos ao fundo, olhos ao chão.

Calvinando

"Começou a fazer um diário: fotográfico, claro. Com a máquina pendurada no pescoço, afundado numa poltona, disparava conpulsivamente com o olhar no vazio. Fotografava a ausência de Bice."
Gli Amori Dificili, Italo Calvino, pag.62.
Italo Calvino me deixou com uma incrível vontade de tentar dormir em um compartimento de vagão de trem durante uma viagem que dure uma noite. Ai, como ele é foda.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Saraivando

Querido dsiário, [adoro curtir com gêneros literários! haha!]

Comprei dois livros importantes hoje, por puro impulso. Um deles eu já estava namorando a muito tempo, o outro, foi paixão a primeira vista ao vê-lo naquela prateleira de madeira, quietinho, sorrindo para mim, em meio a todo aquele clima de ar-condicionado da livraria.
O primeiro, um curso de Italiano, passo a passo. Interessante, decidi hoje que vou ser autodidata para algumas coisas. No caso de aprender Italiano, decorre da conclusão de que eu não vou perder meu tempo frequêntando aulas de uma língua que não é essencial e muito menos tão importante quanto outras na minha vida. É puro hobby, e uma paixão que vem desde Cabíria e seu "Io no voglio vivere più!".
O outro é o tipo de livro que se compra por ostentação, para se ter na sua biblioteca particular: um volume único com as obras completas dos Irmãos Grimm, traduzido para o Inglês numa versão de 1869 (uma tradução anônima, o que é ainda mais emocionante, hihi!). Ah!, o melhor: por apenas 14 reais.
Eu cometi a piada de pedir para embrulhar para prensente, como se as atendentes estivessem bem desocupadas e disponibilíssimas para realizar tais caprichos de uma pessoa em um momento tosco. Mas eu quis para presente! Quis me dar os livros. Pronto.
- Aqui está, Felipinho, uma lembrancinha, meu querido!
-Oh! - cara de espanto -, mas que honra!

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Aviso

"Gentse, como assim vocês ainda não perceberam que a nova música da Britney, Gimme More, é sobre drogas???"

Ruta no Ra


Almoçar no RU às vezes tem enormes vantagens, mesmo quando o cardápio não é estrogonofe de soja ou hamburger de frango. Dessa vez eu comi sozinho. Solito, como diria minha mãe. Do meu se sentaram dois sujeitos daqueles que você não consegue supor, por mais conectado que você seja aos esteriótipos universitários, qual curso faziam. Um deles tinha um semblante lento, o outro, rápido por demais.


-Pois é cara, é muito interessante esse lance de origem das palavras né? De línguas e tal... - esse é o lento.

-Nossa, muito mesmo. - o rápido.

-Eu tenho um amigo meu que é croata, imagina só a língua dele!

-Nossa... Você sabe, né? Tipo, a origem dos nomes desses países da lá, né? Tipo, vem de slave, que significa escravo em inglês.

-É mesmo?

-É. Slave significa escravo, e foi por isso que os países de lá mudaram de nome. Tipo, Eslovenia, Eslováquia, todos daquela região lá - aí ele começou e não parou mais - pois é, e tipo, é muito interessante essa questão por que você pode perceber a história desses processos. Era uma vergonha pra esses países terem um nome que derivasse de uma palavra que significa escravo em outra língua. Por isso eles mudaram. Mas tudo isso ocorreu porque os europeus eram tão preconceituosos que nem negros eles escrevisavam naquela época, então eles escravizaram esses povos do centro da europa, a Croácia, Elovênia, Eslováquia e tal...


Juro que é tudo veradade! Quase não consegui degustar meu incrível pedaço de alcatra asada por causa dessa incrível análise! Que medo! Já sei de onde vou retirar o tema para o meu Projeto de Iniciação Científica: "Uma Análise Linguístico-Causal para uma nova historiografia das Relações Internacionais", ou então, "As Línguas Anglo-saxãs como a base para todo o constrangimento Internacional". Incrível, o cara era um gênio!


Esse epsódio me fez lembrar o quanto eu odeio pessoas que presumem um conhecimento de mundo incrivelmente maior do que possuem. Que arrogância. E ignorância, por que julgam que o interlocutor var acreditar em tudo o que ele despeja língua à fora. Acho triste. Acho divertidíssimo.


[Gente, que horror. Ao terminar esse post, fui pesquisar um pouco sobre a Croácia e descobri que ela não tem um Lema! Tá na wikipédia! Credo, como deve ser triste para eles! Não ter um lema...]

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Pânico na Sala de Aula


Vida de professor não é fácil.

Eu tenho um aluno meio estranho. Ele tem uma pronuncia perfeita, mas é muito estranho, sabe daquele tipo que se senta em uma cadeira e fica curvado, como se escondesse algo, ou como se não quissesse olhar para ninguém. Pois é, ele sempre vem de bicicleta pra aula e sempre chega exatos quinze minutos atrasado.

O fato é que hoje ele veio sem bicicleta. Não, o problema que me assustou não foi esse, foi outro. No decorrer da aula, que era basicamente de conversação, uma pergunta foi proposta pelo livro:

-Do your friends often laugh at you?

E eu dirigi essa pergunta à ele:

-Yes, they do always.

-Yes, really? But, why?

-They call me "cabeça de panetone"...

-Really?

-Yes... - olhou para um ponto perdido no chão da sala, com um semblante por demais sério - mas tudo isso vai mudar, tudo isso vai mudar, hoje isso tudo vai ser diferente...

Aí sim eu fiquei com medo. Já tava vendo o menino matando os amigos em uma fúria vingativa! Sempre a mesma coisa, as vitmas de bully se rebelando e esfaqueando os agressores! Que horror! Aposto que ele ja havia até comprado a AR-15 pra metralhar todos eles! Ah! Agora tudo se encaixa! Era por isso que ele havia vindo à pé pra aula hoje! Ele vendera sua bicicleta pra comprar a AR-15!!! Tudo se encaixa!

Minha ilusão derreteu quando ele retomou a palavra e disse:

-Porque hoje eu vou cortar o cabelo.


quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Melodias de Vida


O grande tema da minha vida, assim como constataria Kundera, eu descobri há alguns dias, apesar de toda a presunção. A minha grande problemática é a minha constante vontade de ter poder sobre tudo. A minha percepção de que o poder está em tudo é muito parte de como eu funciono. Não é simplesmente um autoritarismo extremado, mas sim uma vontade de obter controle, pelos mais diversos motivos. É foda. Eu me articulo de todas as formas, não sei se para controlar situações ou se para me dar a ilusão de que controlo alguma coisa. O poder me explica muito bem. Depois, mais foda ainda é quando eu descubro que eu não tenho todo esse controle, que nem controle sobre nada eu tenho. É foda, e daí, como não poderia ser diferente, eu sofro.

Odeio posts muito pessoais, odeio. Não sei lidar com a preponderância arrogante de ficar digitando palavras contaminadas de muitos eus e meus, que chatice. Meu ego-problemático-suicida não dá conta de aceitá-los. Desculpem-me, não dei conta de evitar esse.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Discussão acerca da existência de uma natureza humana e a importância da deliberação frente às suas problemáticas


A discussão acerca da existência de uma natureza humana, que proporcionaria ao homem direitos inalienáveis, é inútil. No entanto, visto que existe uma percepção intra-social realizada pelos indivíduos acerca de direitos inalienáveis, feita através do contato destes com sua cultura e com suas ideologias, sejam eles válidos ou não, deve-se considerar tanto a sua função na sociedade quanto a possibilidade de formulação desses direitos inerentes à uma suposta "natureza humana" que forçariam ações individuais e sociais. A problemática inserida nisso é não só o reconhecimento e legitimação desses diretos, mas também de avaliação dos mesmos. Por isso, em termos normativos, deve-se investir em políticas de deliberação com o fim de propiciar discussões que visem alcançar e definir consensualmente, sendo isso possível ou não, quais são esses direitos que os membros da sociedade enxergam através da sua lente cultural-ideológica.


A Monografia


16h50, minha casa:

lyanna (clack!) - www.waltzforanight.blogspot.com diz:que isso?a modernidade, que me fez o favor de acabar com os heterosvai ser minha monografia."A modernidade e a morte do cromossomo y"

pi diz:kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk mas tem que ser na area de letras, entao o tema tem que ser esse: "A relação entre a linguistica aplicada da modernidade e o cromossomo y"

lyanna (clack!) - www.waltzforanight.blogspot.com diz:"e a morte do cromossomo". tenho que falar que ele morreusenão vão achar que escrevi sobre ele. daí fica sem créditos. ah não

pi diz:nao, lý. é pq vai ser uma dissertação literária, vc só vai contar que o cromossomo y morreu no final, NO CLIMAX!!! ai as leitoras choram. senao forem feministas, claro.

lyanna (clack!) - www.waltzforanight.blogspot.com diz:HSAUihsaiushaiusaHiUAShsaUIhSAeu vou chorar escrevendoah não, gente. ah não, pi!

Aquela que devia ter comido o próprio cérebro



O de sempre: adoro programas vespertinos. O de hoje apresnetava uma matéria sobre comidas exóticas. O repórter perguntou a uma mulher que acabara de experimentar cérebro de boi:
-E aí, o que você achou?

-Olha, até que o gosto não é ruim não. Posso dizer que não me traumatizou não. Mas sei que nunca vou esquecer disso.

Incoerência é foda: Freud chuta mais uma vez a tampa do caixão.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

A Mostarda


E como fica a questão do artista que produz uma obra que, quando é apreciada pelo público, esse descobre nela alguma outra coisa que o próprio artista não havia pensado, que não havia sido conceituado? Como fica? Como fica a obra, enriquecida-além ou deve-se desconsiderar o detalhe-além-dos-olhos-do-próprio-criador por aquele não ter sido envolvido na conceituação artística?

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

A Pia

Já fazia um mês que aquela pia estava daquele jeito, nojenta! E a moça das pernas depiladas refletia sobre aquele fato – sempre com o queixo caído, estática, com os olhos fixos num ponto no canto do teto. Como podia deixar a situação chagar àquele ponto? Não havia limites, não havia tolerância que superasse aquela aberração. Um horror. Aquela pia estava um horror. E ela continuava pensando, com preguiça, que a culpa daquilo tudo era da própria preguiça. Da preguiça e da incapacidade que ela tinha de terminar as coisas, de resolvê-las e atirá-las em direção a um limbo para onde vão as coisas-resolvidas-e-que-não-mais-incomodam-os-homens. O motivo não seria necessariamente o fato de ela morar só, motivo o qual a daria a liberdade de resolver os próprios problemetes cotidianos quando quisesse, ou quando não agüentasse mais, como sempre ocorria. Havia cabelo na louça branca da pia, que deixou de ser branca devido ao sucessivo acúmulo de baba, xampu, pasta dental, loção para barbear, excrementos, restos de vômito, leite azedo (pois ela achava um crime jogá-lo no lixo e fazer os lixeiros, pobres servidores da podridão humana, carregarem em seus intermináveis sacos pretos que vazariam, vazariam, vazariam e gotejariam cansativamente), catarro, sangue menstrual e nasal (“Senhores passageiros, desculpem-nos pela umidade baixa”), gelatina de uva, leite condensado e coca-cola light (por que ela era interminavelmente gorda). Mas ocorre que, entre lençóis quentes e uma noite abafada, ela acorda. Levanta-se da cama com um salto violento e corre ao banheiro. Para. Abaixa a cabeça 27° e observa a Pia Negra. Cerra o olho esquerdo alguns milímetros e forma uma feição desafiante. O ápice havia chegado e ela não sabia de onde ele vinha. Teria entrado pela porta sem que ela percebesse? Não, a campainha teria tocado. Os ápices tocam campainha? Ela não sabia. Teria entrado pela janela? Não sabia e aquilo não interessava mais. No escuro do banheiro grande de sua casa, ela arregaçou as mangas e dirigiu-se ao monumento à sua frente, apoiou o braço direito na borda, violenta mais cuidadosamente para evitar um deslizamento devido à viscosidade que a louça adquirira, e mergulhou profundamente a mão na poça de água (substantivo que há muito deixara de querer nomear aquele líquido acumulado naquele local). Ela sabia que estava entupido. Ah, ela sabia, e ela temia isso. Mas agora era pra valer. Aproveitando as dobras de gordura que ela decidira ter na palma da mão, ela começou a pressionar o ralo, fazendo uma força que resultasse em uma pressão que possivelmente resolveria o problema do entupimento desagradável. Palma da mão e ralo de metal. Um vai-e-vem interessante. E ela começou com o movimento de pressão energicamente, batidamente. Excitante. Que loucura, que coisa maravilhosa, que ritmo impressionante, que delícia! Ela descobrira a oitava maravilha do mundo (ou da sua própria casa). Como poderia ela nunca ter se dado conta de que tinha, logo ali no banheiro, uma amiga que estava sempre esperando por ela, um consolo, um prazer-pronto-e-prático: sua piazinha linda! O braço já apresentava fadiga quando ela decidiu acelerar o ritmo, agora ela já urrava, se debatia (sem tirar a mão do ralo), jogava a cabeça pro lado, esquematizava expressões felinas. E tudo parou em um jato. De repente. O ralo explodira a pia quebrara. A moça caíra espatifada no chão e a pia de bunda caíra no tapete. Ela, suando, olhou para o teto mais uma vez e disse, chega, vou deixar para separar os parágrafos depois... depois, depois, não preciso fazer isso agora, estou com preguiça. Reticências.