lembra do meu comentário sobre a crise americana? pois é, crises têm esse poder quase curativo, ao menos para mim. mais que isso, são exercícios de saúde. quanto à solidão, talvez o que você tenha dito sobre o 'nada vai estragar' não seja mais que a grande crise e, por isso mesmo, a grande salvação. talvez nada possa estragar a solidão, e nem deveria fazê-lo. é difícil esse atingimento de si mesmo. difícil triplamente visto que o caminho (I) é longo e é necessário desapego do que não é eu, além de (II) haver o (encontro com a) estranheza e o (III) risco de se confundir o estar-a-sós com solipsismo. creia-me: os gregos sabiam bem o que o encontro com o terrível poderia trazer à tona, e por isso o perseguiam incansavelmente nas tradédias. isso antes daquele imbecil (= sócrates) solapar a tragédia e inventar a dialética que, elas mesmas, não têm nada de imbecil. mas ainda quero te dar um trecho, talvez para não perder o hábito acadêmico de falar por citações, talvez por vontade de mostrar que este estar-a-sós acontece a todos, ou poderia acontecer, e nos liberta para (sem nos livrar de) uma vida-com-outrem, ou/e provavelmente para te mostrar ainda como essa experiência com a solidão é partilhada e partilhável. entre outras inúmeras razões. (segue no segundo comentário)
(errata do comentário anterior: leia-se 'tragédias' em vez de 'tradédias'.)
"A angústia não é somente angústia com... mas, enquanto disposição, é tabém angústia por... O por quê a angústia se angustia não é um modo determinado. de ser e de possibilidade da presença*. A própria ameaça é indeterminada, não chegando, portanto, a penetrar como ameaça neste ou naquele poder-ser faticamente concreto. A angústia se angustia pelo próprio ser-no-mundo. Na angústia perde-se o que se encontra à mão no mundo circundante [...]. O 'mundo' não é mais capaz de oferecer alguma coisa, nem sequer a co-presença dos outros. A angústia retira, pois, da presença a possibilidade de, na decadência, compreender a si mesma a partir do 'mundo' e da interpretação pública. Ela remete a presença para aquilo por que a angústia se angustia, para o seu poder-ser-no-mundo. A angústia singulariza a presença em seu próprio ser-no-mundo que, em compreendendo, se projeto essencialmente para possibilidades. Naquilo por que se angustia, a angústia abre a presença como ser possível e, na verdade, como aquilo que a partir de si mesmo, pode singularizar-se na singularidade.
Na presença, a angústia revela o ser para o poder-ser mais próprio, ou seja, o ser-livre para a liberdade de escolher e acolher a si mesma. A angústia arrasta a presença para o ser-livre para... [...], para a propriedade de seu ser enquanto possibilidade de ser aquilo que já sempre é. A presença como ser-no-mundo entrega-se, ao mesmo tempo, à responsabilidade desse ser."
Martin Heidegger, "Ser e Tempo", p. 254 (vol. único).
* opção da tradutora para Dasein, normalmente traduzido por ser-aí ou, em textos de outros autores (Kant, por exemplo), por existência. Hiedegger refuta a compreensão de Dasein como ser-humano, ainda que apenas o homem exista no modo próprio que é chamado Dasein. (aliás, em sentido estrito, apenas o homem existe, coisa que Heidegger explica melhor em outro lugar. posso achar a citação depois se te interessar.)
"You'll have to take another pill and tell another lie And lie amongst your lies like tuna in the brine."
Tuna in the Brine, Silverchair.
"Certo il costo da pagare è alto ma dobbiamo acettarlo: non poterci distinguere dai tanti segnali che passano per questa via, ognuno con suo significato che resta nascosto e indecifrabile perché fuori de qui non c'è più nessuno capace di ricervirci e d'intenderci. "
Gli amori dificili, de Italo Calvino.
"[...]portanto não lhe restava nada a fazer senão esperar; acossado por autocensuras e apreensões começou a rastejar, rastejar sobre tudo: paredes, móveis e teto e, por fim, desesperado, quando todo o quarto começou a girar a sua volta, caiu no meio da grande mesa."
A Metamorfose, de Franz Kafka.
"[...]give me one page / give me one page / make it blank /mace that i leak / will rain / give me one page / give me one page / make it blank / race i inflict / your way"
Day Of The Baphomets, The Mars Volta.
"Look into my eyes, It's the only way you'll know I'm telling the truth."
Knives Out, Radiohead.
"O bom senso diz que as coisas da terra não existem inteiramente e que a verdadeira realidade só é encontrada nos sonhos."
Baudelaire, em Paraísos Artificiais.
"Mas eu estou confundindo tudo outra vez, minha Nossa Senhora! Alfredo Germont é de uma ópera! Traviata. Foi Traviata! [...] Como ando com a cabeça, Clessi!"
Alaíde, em Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues.
"-Você sabe mentir bem.
-Tenho cara de mentiroso?"
Milan Kundera, em O Jogo da Carona
"Because one says something doesn't mean one believes in it"
6 comentários:
lembra do meu comentário sobre a crise americana? pois é, crises têm esse poder quase curativo, ao menos para mim. mais que isso, são exercícios de saúde. quanto à solidão, talvez o que você tenha dito sobre o 'nada vai estragar' não seja mais que a grande crise e, por isso mesmo, a grande salvação. talvez nada possa estragar a solidão, e nem deveria fazê-lo. é difícil esse atingimento de si mesmo. difícil triplamente visto que o caminho (I) é longo e é necessário desapego do que não é eu, além de (II) haver o (encontro com a) estranheza e o (III) risco de se confundir o estar-a-sós com solipsismo. creia-me: os gregos sabiam bem o que o encontro com o terrível poderia trazer à tona, e por isso o perseguiam incansavelmente nas tradédias. isso antes daquele imbecil (= sócrates) solapar a tragédia e inventar a dialética que, elas mesmas, não têm nada de imbecil. mas ainda quero te dar um trecho, talvez para não perder o hábito acadêmico de falar por citações, talvez por vontade de mostrar que este estar-a-sós acontece a todos, ou poderia acontecer, e nos liberta para (sem nos livrar de) uma vida-com-outrem, ou/e provavelmente para te mostrar ainda como essa experiência com a solidão é partilhada e partilhável. entre outras inúmeras razões. (segue no segundo comentário)
(errata do comentário anterior: leia-se 'tragédias' em vez de 'tradédias'.)
"A angústia não é somente angústia com... mas, enquanto disposição, é tabém angústia por... O por quê a angústia se angustia não é um modo determinado. de ser e de possibilidade da presença*. A própria ameaça é indeterminada, não chegando, portanto, a penetrar como ameaça neste ou naquele poder-ser faticamente concreto. A angústia se angustia pelo próprio ser-no-mundo. Na angústia perde-se o que se encontra à mão no mundo circundante [...]. O 'mundo' não é mais capaz de oferecer alguma coisa, nem sequer a co-presença dos outros. A angústia retira, pois, da presença a possibilidade de, na decadência, compreender a si mesma a partir do 'mundo' e da interpretação pública. Ela remete a presença para aquilo por que a angústia se angustia, para o seu poder-ser-no-mundo. A angústia singulariza a presença em seu próprio ser-no-mundo que, em compreendendo, se projeto essencialmente para possibilidades. Naquilo por que se angustia, a angústia abre a presença como ser possível e, na verdade, como aquilo que a partir de si mesmo, pode singularizar-se na singularidade.
Na presença, a angústia revela o ser para o poder-ser mais próprio, ou seja, o ser-livre para a liberdade de escolher e acolher a si mesma. A angústia arrasta a presença para o ser-livre para... [...], para a propriedade de seu ser enquanto possibilidade de ser aquilo que já sempre é. A presença como ser-no-mundo entrega-se, ao mesmo tempo, à responsabilidade desse ser."
Martin Heidegger, "Ser e Tempo", p. 254 (vol. único).
* opção da tradutora para Dasein, normalmente traduzido por ser-aí ou, em textos de outros autores (Kant, por exemplo), por existência. Hiedegger refuta a compreensão de Dasein como ser-humano, ainda que apenas o homem exista no modo próprio que é chamado Dasein. (aliás, em sentido estrito, apenas o homem existe, coisa que Heidegger explica melhor em outro lugar. posso achar a citação depois se te interessar.)
errata II: "estranheza" foi pensado inicialmente como "estranhamento", por isso da discordância de gêneros.
errata III (da citação): "se projeta" em vez de "se projeto".
gente... kkkk
eu ia comentar, mas desisti.
kkkkkk
táti, me senti tão over agora... rs;
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